A prisão ruiu com o sismo e os gangs voltaram a dominar a Cité du Soleil


A Cité du Soleil é o bairro mais pobre de Port au Prince, uma das cidades mais pobres do mundo (Sophia Paris/Reuters)

A Cité du Soleil é o bairro mais pobre de Port au Prince, uma das cidades mais pobres do mundo (Sophia Paris/Reuters)

Reportagem
Na Cité du Soleil, um homem faz caixões e na porta ao lado outro pôs de fora as colunas de som e asperge reggae em altos berros para a rua toda. O enorme mercado não tem nada para vender, mas está cheio de gente, e há sempre quem esteja disposto a roubar, e quem esteja pronto a correr o ladrão à pedrada.

Não há electricidade nem água, nem esgotos, apenas um rio a fermentar excrementos, que atravessa o coração do bairro. O cheiro é insuportável mas ninguém se queixa. Talvez já não o notem. De qualquer forma, não é pior do que o fedor da lixeira, que mesmo assim parece agradar aos porcos e às crianças.

A maior parte das casas está arrasada, mas é impossível saber onde começa a responsabilidade do terramoto. Algumas das paredes desmoronadas estão crivadas de balas, o que prova que ali há dedo humano. Mas a maior parte das habitações são barracas, de lata, e nesses casos pouco se nota se estão destruídas ou não.

É miserável a vida no grande slum, mas não triste. “Temos as nossas festas, como toda a gente. Há sempre maneira de gerir a vida”, diz Pasqua, um jovem desempregado, os pés na beira de uma fenda que o sismo abriu na rua. “Tem sido difícil, mas é sempre possível ultrapassar as dificuldades”, acrescenta Louisjuste, o fabricante de caixões.

Há música e palmeiras, danças na rua, crianças a brincar, raparigas de minissaia a rir às gargalhadas, casas verdes e cor-de-rosa, esplanadas, salões de igrejas – evangélicas, pentecostais, Testemunhas de Jeová, Exército do Céu -, o mar.

A Cité du Soleil é o bairro mais pobre de Port au Prince, uma das cidades mais pobres do mundo. Mas fica ao pé do mar. Uma localização privilegiada. Há décadas, no tempo de Papa Doc, François Duvalier, era uma área de luxuosas vivendas. Chamava-se Cité Simone, o nome da mulher do ditador. A entrada era proibida aos pobres.

Mas quando Jean-Bertrand Aristide chegou ao poder, anunciou às massas miseráveis e analfabetas do Haiti o direito à esperança. Muitos dos que viviam nos campos afluíram à capital, em busca de trabalho. Aos primeiros o Governo deu casas, na zona perto do mar. Os outros, que vieram às centenas de milhares, construíram as suas próprias barracas.

Aristide rebaptizou o bairro como Cité du Soleil, em homenagem às populações que, como ele dizia, antes viviam nas trevas e agora viam a luz do sol.

O bairro nunca emergiu da pobreza extrema, mas nem por isso deixou de ser o bastião de Aristide, nas várias fases da sua vida política. Quando foi Presidente, quando foi destituído, quando fugiu, quando voltou, quando esteve na oposição, quando fugiu outra vez e agora que quer voltar.

“Aristide armou os chefes criminosos do bairro, para que eles o defendessem. Criou um exército de rua, que depois ficou por conta própria”, explica J, um agente da Polícia do Haiti, que quer manter o anonimato. “Uma vez, em 2007, eles barricaram-se ali, cheios de armamento pesado, e houve uma verdadeira batalha, de vários dias”, conta ele, apontando para a parede esburacada de balas de um enorme edifício que foi uma fábrica.

A “batalha” foi travada entre os líderes dos gangs e a Polícia, cuja esquadra fica do outro lado da rua. Hoje, a fábrica está meio-destruída e a esquadra completamente nova, o que não significa o que parece – os polícias não ganharam a batalha. A esquadra é nova porque foi reconstruída. E de tal forma foi reconstruída como uma fortaleza, para resistir aos bandidos, que resistiu ao terramoto. Aos bandidos não é certo que continue a resistir.

“Na Cité du Soleil, cada rua tem um gang e um líder desse gang. Cada bairro tem também o seu líder de gang, e acima de todos eles há um líder de gangs supremo”, explica J, que participou na maior parte dos combates contra estes líderes. Hoje, J pertence a uma unidade que investiga a corrupção no seio da Polícia. “Há, nos gangs, uma hierarquia, em que toda a gente sabe onde pertence e a quem deve obediência”, acrescenta.

Mais fortes do que a polícia

Bem organizados e bem armados (M16, Uzis e outro material de guerra), os líderes do crime, com o apoio da população de Cité du Soleil, formaram uma força tão ou mais poderosa do que a própria Polícia.

Desenvolveram várias técnicas para ganhar dinheiro: roubar (da forma conhecida aqui como dechoucaj) não no seu próprio bairro, mas nas zonas ricas da cidade, como a Grand Rue e as artérias adjacentes, onde se situa o comércio, raptar elementos das famílias ricas, para pedir resgates.

Usavam, para isso, jovens das famílias pobres de Cité, a quem depois (o próprio agente J admite isso) davam protecção e distribuíam parte dos proventos do crime.

Por via do seu poder económico e militar, estes líderes sempre foram cortejados por diferentes facções políticas, e fizeram o jogo de umas e outras, com benefícios mútuos.

Mas a partir de 2008, com a relativa estabilização política no país e a derrota da facção apoiante de Aristide, a Polícia teve finalmente condições para combater os líderes da Cité du Soleil. Um a um, foi-lhes deitando a mão. Uma das estratégias usadas, com crescente êxito, foi encorajar a população à denúncia, sob a promessa de recompensas.

Em 2009, todos os grandes líderes criminosos da Cité du Soleil estavam presos, e a situação no bairro controlada. Mas depois aconteceu o terramoto. A prisão ruiu e os detidos fugiram. Há agora a informação de que andam a reunir os seus velhos gangs. Estão sedentos de riqueza (aproveitando o caos em que o país mergulhou) e de vingança, contra a Polícia e contra quem os denunciou. “Agora que os chefes dos gangs estão a monte”, garante J, “vai haver sangue”.

Os senhores do crime

Mas quem são afinal esses senhores do crime, que hoje aterrorizam a população e fazem temer o pior quanto ao futuro do país?

O patriarca de todos os líderes foi um homem conhecido como Dread Wilmin e que se tornou uma lenda na Cité du Soleil e em todo o Haiti. A sua figura era inconfundível. Usava duas tranças, enrijecidas com gel, que se elevavam no ar dos dois lados da testa, como dois cornos de carneiro. Era um misto de mafioso, guerreiro, místico e sacerdote vudu. Dizia-se que tinha poderes: as balas atravessavam-lhe o corpo e ele não sentia nada. Era talvez por causa dessa autoconfiança que, quando lutava, descalçava os sapatos, despia a camisa e as calças, e era assim, em cuecas, sem armas nas mãos, que vencia quem ousasse desafiá-lo. Acabaria por ser morto, em 2006, pelos marines americanos, que se instalaram no país.

Sucedeu-lhe Evens, cuja alcunha, por alguma razão, era Ticouteau, o “Canivete”. Até ter sido preso, em 2008, e depois morrido de sida na prisão, em 2009, foi o líder incontestado do mundo do crime. Nunca aparecia em lado nenhum com menos de dez guarda-costas usando coletes à prova de bala e armados de metralhadoras. Era um homem belo, de 26 anos no auge da sua carreira, de modos doces, apesar do fel que lhe corria nas veias.

Evens foi o último líder com alguma “gravitas”. Quando desapareceu de circulação, emergiu uma série de chefes para quem a forma era mais importante do que o conteúdo, em termos de personalidade criminosa. Antes de mais, Blade. Quando se pergunta por ele, as pessoas riem-se, e dizem: “Era uma superstar!” Alto e musculoso, apesar de extraordinariamente feio, Blade foi um dos que, com o terramoto, se evadiram da prisão. Não se sabe ao certo o que é feito dele, mas J garante que foi morto há dias num tiroteio com a Polícia.

Depois, Yo-Yo Piment, líder de Belicourt, uma zona de Cité du Soleil. De tez muito escura, modos bruscos e uma escolta de assassinos armados até aos dentes, morreu num combate contra a Polícia, sem nunca chegar a ser preso.

Todos estes líderes têm vinte e tal ou trinta e tal anos. Só um, Beloni, é mais velho. Veio do nada e começou cedo. Nasceu numa aldeia e quando, muito jovem, chegou a Port au Prince, vendia cana-de- açúcar nas ruas. Mas foi subindo a pulso e chegou a chefe da Route 9, uma rua da Cité du Soleil. É um dos que fugiram da prisão e agora andam à solta.

Outro nessas pouco auspiciosas condições é Basil. Baixinho, sem nada na sua aparência que o identifique como chefe de gang, voluntariamente desprovido de escolta, é famoso pelos rentáveis raptos que perpetrou. Chamam-lhe Ti Basil. “Ti” significa pequenino.

Por fim, consideremos Amaral, um bandido enorme, de cabelo rapado, que antes de ser preso fugiu para a República Dominicana. Já não saiu de lá.

A França soube da detenção e pediu a sua extradição, por crimes alegadamente cometidos contra cidadãos franceses. Não se sabe o que vão decidir as autoridades de Santo Domingo, mas dificilmente Amaral sairá em liberdade.

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