Os dias da passagem (PT)


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Vinho e pão sem fermento, argamassa doce, ervas amargas, ovos pintados, jejum, alimentos benzidos: a comida como história num labirinto de ritos. Da tradição judaica às dos vários cultos cristãos, passando por heranças ditas pagãs, como a que celebra o início da Primavera e evoca a deusa Eostra, a celebração pascal é polissémica.

“Vamos celebrar a Páscoa e quem passe e tenha fome que entre e coma.” A frase dá início à celebração judaica da fuga do Egipto, aquela cujo nome hebraico, Pessach (passagem), foi tomado de empréstimo pela celebração cristã da morte e ressurreição de um messias que os judeus não reconhecem. Em casa dos Ruah, Maria e Joshua, em Lisboa, a porta do 11.º andar fica simbolicamente aberta, mesmo se é pouco provável alguém passar: “Isto é essencialmente uma festa da família e dos amigos e aquilo que prestigia mais isto é o facto de se convidarem as pessoas que não têm onde celebrar”. Outra explicação é a da possibilidade de o profeta Elias vir sentar-se à mesa (onde fica sempre um lugar vago) para anunciar a chegada do Messias.

Faz-se a “bênção do vinho” e lê-se o Hagadah, “história” em hebraico. A história é da fuga e do seu comandante, Moisés, da travessia do Mar Vermelho, do pão que na pressa não levedou. “Uma história de liberdade”, resume Joshua, citando outra das frases rituais: “Este ano somos escravos na terra do Egipto para o ano estaremos livres na terra de Israel”. Em casa dos Ruah é ele, “o patriarca” (69 anos, a mesma idade da mulher Maria) que lê a história, recostado numa cadeira de braços. Na mesa, durante a leitura, além de cálices de vinho, um prato grande coberto com um pano de veludo alberga os alimentos rituais: ossos de cordeiro, pão ázimo (sem fermento, a matzah), ervas amargas (no caso, aipo), um doce com vários ingredientes que simboliza a argamassa da construção das pirâmides, e um ovo, “representando a contiguidade”. O patriarca retira-os e mostra-os, um a um, enquanto narra. “E o mais novo faz perguntas sobre a comida: por que é que nos outros dias comemos coisas boas e doces e hoje comemos ervas amargas, porque é que nos outros dias comemos um pão fermentado e hoje comemos pão sem fermento. E o mais velho responde.”

Joshua Ruah, cinco filhos (“Queria ter tido mais”, comenta com uma gargalhada) e “só cinco netos até agora”, cirurgião geral e urologista, um dos nomes mais conhecidos da comunidade judaica portuguesa, explica que este ano a celebração se iniciou na segunda-feira à noite, 29 de Março, e durará oito dias, até à próxima terça 6 de Abril. Os oito dias que dura a Páscoa na “diáspora”, já que na terra que crêem prometida os judeus só celebram sete. “É por causa da incerteza que antes havia nas datas”. Antes do jantar-cerimónia, passou na sinagoga para um ritual de uma hora – findo o qual se convidam os presentes, mesmo desconhecidos, que estejam sós e “não tenham para onde ir celebrar”.

Em casa, na qual se esperavam nos dois primeiros dias da quadra mais de duas dezenas de convivas, ficou Maria, a presidir à simbologia comestível. Uma trabalheira, que começa nas compras, efectuadas em Madrid, onde a comunidade judaica é muito maior e os preços mais suaves permitem compensar a ida e volta. Vinho e carne (em tempos houve em Lisboa um talho que fazia o abate de acordo com as exigências judaicas, mas já não há e só se vende carne kasher congelada) vêm assim de Espanha. O pão ázimo, várias caixas, é encomendado num supermercado lisboeta. Depois é preciso cozinhar. No primeiro dia, o jantar é de acordo com a tradição asquenazi (judeus do norte, Polónia, Rússia, etc), da linha paterna de Maria; no segundo, sefardita, seguindo as receitas da casa de Joshua. “Na segunda feira tivemos almôndegas de peixe que se comem com uma raiz moída que chamamos rábano de cavalo, que se mistura com beterraba e vinagre e sal e açúcar. Esse picante, com o ligeiro adocicado das almôndegas, faz uma mistura muito agradável. Tivemos também canja de galinha com umas bolinhas feitas de farinha e frango estufado no forno com ervilhas, cenoura caramelizada e batatinha.” Na terça, uma sopa de legumes que fica um dia ao lume a apurar e que, maravilha-se Maria, “neste dia não se desfaz, os legumes ficam inteirinhos, ninguém consegue explicar porquê”, servida com coentros frescos picados, “mais almôndegas de carne com ervilhas, túbaras [trufas brancas] e fundos de alcachofra”. Quanto ao doce que representa a “argamassa”, o haroset, cada casa tem a sua receita. A de Maria é em cru e leva tâmaras, maçã reineta, banana, vinho, especiarias, nozes, amêndoas, tudo moído e bem misturado. Quilos e quilos porque “é para comer em dois dias”.

A próxima refeição ritual – a terceira – é no último dia da Páscoa, ao pôr do sol. “Põe-se uma mesa muito bonita, com um peixe inteiro com escamas e tripa (normalmente um sável, porque é um peixe que aparece nesta altura, uma primícia). O peixe, que antigamente se cozinhava, o que implicava comer às tantas da manhã pelo que nos deixámos disso, simboliza a chegada ao pé do mar; coloca-se também uma taça com farinha, favas cruas e ovos (que representam a vida), um copo com mel, outro com azeite, e ouro – é uma mesa cheia de imagens metafóricas que tentam dar a ilusão daquilo que Moisés prometeu, uma terra de fartura.” Quando as pessoas chegam, a dona da casa dá-lhes uma folhinha de alface com mel e deseja um ano doce e bom a todos (o ano judaico, calculado pelo calendário lunar, começa nesta altura). Depois, “tiram-se as coisas da mesa, põem-se os pratos, os copos e janta-se.” E pronto, acaba-se a Páscoa judaica – até ao ano seguinte.

Correspondendo à fuga do Egipto, o Pessach legou o seu nome e datação à Páscoa cristã porque a morte do messias cristão, Jesus, ocorreu no segundo dia da celebração judaica. A última ceia, em que Jesus teria designado o pão não levedado e o vinho como sua carne e sangue, foi uma refeição ritual judaica. Por esse motivo, durante muito tempo as Páscoas coincidiram nos mesmo dias, calculados a partir do calendário lunar como ocorrendo no 14.º dia de Nissan (o primeiro mês desse calendário). Assim foi até que no ano 325 depois de Cristo um concílio convocado em Niceia (então grega, hoje uma cidade turca) alterou esse facto, ficando decidido que a celebração cristã ocorreria noutra data. Em carta, o imperador Constantino (o primeiro imperador romano a converter-se ao cristianismo e o responsável pela convocação do concílio), certifica que os cristão “não podem ter nada em comum com os judeus”, cuja “companhia” designa como imprópria por “terem manchado as mãos com o mais horrível dos crimes”. “É-nos verdadeiramente vergonhoso ouvirmo-los vangloriar-se de que, sem a sua orientação, não poderíamos guardar esta festa”, conclui. Em concílios seguintes (Antioquia e Laodicea) os cristão foram proibidos de celebrar a Páscoa com os judeus, de observar o Shabbat (o dia de descanso semanal dos judeus, o sábado), de receber prendas de judeus e até de comer pão ázimo nos festejos judaicos – mesmo se a hóstia usada na comunhão católica é uma descendente directa do pão não levedado que Jesus teria partilhado na “última ceia”.

A Páscoa ficou fixada em Niceia num domingo, “acertado” nesse concílio como o dia santo dos cristãos (em substituição do sábado), mas nem sempre “calha” no mesmo dia em todos os ritos cristãos: os católicos do rito oriental, por exemplo, fazem contas diferentes, assim como os cristãos ortodoxos (com os quais, aliás, têm grandes coincidências de tradição pascal); as testemunhas de Jeová, cuja mais importante data religiosa é a Comemoração da Morte de Cristo, usam o calendário lunar (o judaico, portanto) e celebraram-na na terça-feira dia 30.

Pedro Candeias, um dos episcopos (anciãos) da congregação (membros do sexo masculino escolhidos pelos anteriores anciãos e, segundo Candeias, “multifunções”) explica: “O 14.º dia do mês de Nissan é a primeira lua nova na proximidade do equinócio da Primavera e nós seguimos exactamente a celebração que Jesus instituiu na reunião com os apóstolos, quando diz ‘Fareis isto em memória de mim’ e partilha o vinho e o pão não fermentado. As testemunhas de Jeová fazem como ele fez.” Ao contrário dos judeus, dos cristãos ortodoxos e dos católicos (os primeiros só comem pão não levedado nesta época, os segundos abstêm-se de comer carne e, no caso dos ortodoxos, qualquer produto de origem animal, nos 40 dias anteriores ao dia fixado como sendo da ressurreição), as testemunhas de Jeová não fazem uma dieta especial nos dias anteriores à Páscoa: “Só lembramos o que Jesus fez por nós.” O pão não fermentado e o vinho são passados entre os presentes numa cerimónia que ocorre depois do pôr do sol (“Sensivelmente 50 minutos depois das oito horas), mas ninguém come ou bebe: “Salvas com pão e um cálice de vinho puro passam de mão em mão apenas porque só os que fazem parte do grupo de 144 mil pessoas que vão governar a terra depois do Juízo Final podem partilhá-los. É uma indicação do Espírito Santo.”

A passagem do pão e do vinho entre os fiéis, que também ocorre nas celebrações evangélicas da Páscoa, não é nessas congregações um exclusivo desta época, já que uma vez por mês, nestas igrejas, se passa o pão e o vinho em memória da última ceia. “Em termos de folclore, não somos muito folclóricos”, certifica Fernando Soares Loja, um dos representantes da Comunidade Evangélica Portuguesa. “Na sexta à noite há uma celebração especial em que se celebra a última ceia. É um serviço religioso normal com cânticos e há a distribuição do pão e do vinho, igual à que se faz todos os meses.” Não há qualquer refeição especial: “É um almoço perfeitamente normal o de domingo de Páscoa.” Quanto ao jejum não é observado, explica, por fidelidade à interpretação evangélica das Escrituras: “Os fariseus perguntaram a Jesus por que é que os discípulos não jejuavam, e Ele respondeu, ‘Enquanto o noivo está com os seus amigos, não é ocasião para tristezas’. Na nossa perspectiva, como Jesus ressuscita, não há razão para nos penitenciarmos e sofrermos. Ele já sofreu tudo por nós.” As testemunhas de Jeová vão mais longe, pela voz de Pedro Candeias: “Não há nenhuma indicação das Escrituras para celebrar a ressurreição.”

A ideia de uma vida que renasce, ou que se regenera, ligada (obviamente) à estação da abastança e fertilidade, a Primavera, e a proximidade da celebração pascal, até em termos de cálculo astronómico, com o equinócio primaveril, celebrado em várias culturas e religiões (se bem que nem sempre na mesma altura: os hindus por exemplo celebram a Primavera na festa Holi, que decorre em Fevereiro e consta do acender de uma grande fogueira e do lançar de pós coloridos sobre as pessoas, sendo comum seguir nessa altura uma alimentação exclusivamente vegetariana), justifica por exemplo que a palavra usada para denominar a Páscoa em inglês e alemão tenha a sua raiz na deusa Eostre, que em alemão antigo significa “deusa da aurora” e é uma figura ligada à fertilidade, à luz e ao renascer. A história de Eostre, ou Ostara, está associada a coelhos e ovos, que são o seu símbolo e que continuam a imperar na imagética da Páscoa ocidental, nomeadamente na sua versão de chocolate, que poderá ter a ver com o facto de o chocolate, ou cacau, aquando do seu surgimento na Europa, ter sido permitido, em bula papal, como um alimento adequado à época de jejum.

Parece haver também uma tradição chinesa e persa de relação da Primavera e da sua celebração com ovos e oferta dos mesmos. Entre os católicos do rito oriental e os cristãos ortodoxos, os ovos cozidos e decorados – quer com pinturas propriamente ditas (sobretudo na tradição romena) quer tingidos durante a cozedura através de vários métodos – são um elemento central na simbologia pascal. Durante os 40 dias anteriores ao sábado da celebração, os fiéis fazem uma dieta vegetariana, explicada pelo protopresbítero (ou arcipreste) Alexandre Bonito (dependente do patriarcado de Constantinopla) como “um tempo de reflexão e preparação espiritual, de partilha, de abdicar do supérfluo.” Uma dieta em que ovos estão interditos. Mas “após a ressurreição há a tradição de comer ovos tingidos com tinta encarnada”. Ovos que são abençoados na missa e comidos ali mesmo, segundo Bonito, que costuma oficiar em Caselas para uma plateia misturada de gregos, ucranianos, russos e portugueses.

A ucraniana Lyudmyla Buta, 54 anos, há sete em Portugal, habita em Odivelas mas é à igreja de Nossa Senhora da Oliveira (“emprestada pelo Patriarcado de Lisboa) na rua de São Julião, na Baixa de Lisboa, que costuma ir assistir ao culto, dirigido pelo padre Igor Nevinskyy, 32 anos, ucraniano como ela. A celebração inicia-se na sexta-feira (no caso, ontem) com uma missa à três da tarde. Hoje, sábado, a missa é nocturna e acaba de madrugada. No final, o sacerdote benze cestos de comida que os fiéis comem quando chegam a casa. O ritual, praticamente igual nos católicos do rito oriental, implica que nas cestas haja um pão especial da Páscoa, uma espécie de folar, carne (chouriço e lombo fumado), sal, manteiga, queijo (geralmente fresco) e os inevitáveis ovos. Lyudmyla, avessa a tintas, costuma usar casca de cebola para os colorir. Mas não os come na igreja. “Quando vamos para a missa não jantamos. No fim, voltamos para nossa casa, bebemos água abençoada, comemos a páscoa abençoada (o nome do bolo/pão confeccionado nesta altura, cuja receita Lyudmyla tem dificuldade e explicar, é “páscoa”), e o resto das coisas.”

A missa em Portugal acaba às quatro da manhã, na Ucrânia dura a noite toda: “Lá é mesmo até às seis.” A seguir à missa, os fiéis têm ainda de ajudar a arrumar a igreja, para que no dia seguinte, domingo de Páscoa, o padre católico possa rezar missa. “Assim como encontramos, deixamos”, certifica Lyudmyla.

A quebra do jejum ocorre depois, antes da missa de domingo, às nove da manhã. Não são dias de dormir, os da festa mais importante para os cristãos ortodoxos . Desde 17 de Março sem comer produtos de origem animal, Lyudmyla assegura que não lhe custa, pelo contrário: “Como batatas, arroz, fruta, legumes. Aqui em Portugal é fácil, mais fácil que na minha terra, onde há menos fruta e legumes. São semanas em que pensamos na nossa vida e na dos nossos familiares e pedimos desculpa a todos. Pedimos perdão, prometemos viver em paz, não fazer mal a ninguém.”

Uma purificação, um rito de passagem para renascer, melhor, mais justo, mais livre; uma comunhão com os outros e o mundo e a celebração da abundância e da luz. A vida: tão simples.

Link original: http://dn.sapo.pt/inicio/portugal/interior.aspx?content_id=1535171

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