Viver dezembro, como os demais meses do calendário


Crenças religiosas, novas formações familiares e filosofia de vida são argumentos para um entendimento diferente do período natalino e suas práticas comemorativas

Notícia publicada na edição de 02/12/2012 do Jornal Cruzeiro do Sul, na página 002 do caderno E – o conteúdo da edição impressa na internet é atualizado diariamente após as 12h.

Para a família de Fidelis Furquim Neto (à direita), o Natal em 25 de dezembro não existe - Por: Erick Pinheiro

Para a família de Fidelis Furquim Neto (à direita), o Natal em 25 de dezembro não existe – Por: Erick Pinheiro

Quando chega o mês de dezembro, um clima de alegria e fraternidade parece atingir a maioria das pessoas, por conta das comemorações de datas como o Natal e o Ano Novo. As lojas, ruas, praças, prédios e casas ficam enfeitados com motivos natalinos e muita gente se sente mais solidária nesta época e procura praticar atos que ajudem aqueles que necessitam, além de existir também aquele desejo de estar junto de todos que se ama. Para isso, as pessoas realizam as tradicionais ceias fartas, com comidas consideradas típicas natalinas, e fazem reuniões familiares, para que essas datas, tão importantes para muitas pessoas, não passem em branco.

Mas para a família do aposentado Fidelis Furquim Neto, 67 anos, o mês de dezembro não é diferente dos outros meses do ano, sendo que eles dizem não ter nada para comemorar ou celebrar. Achou estranho? Saiba que essa não é somente uma realidade de Furquim, mas também de todas as outras famílias que seguem a doutrina denominada Testemunhas de Jeová. Baseados em seus estudos do que está escrito na Bíblia, os Testemunhas de Jeová afirmam que seria impossível a data de 25 de dezembro representar o real dia de nascimento de Jesus, portanto, o Natal em 25 de dezembro para eles não existe.

O aposentado, que também é considerado ancião dentro da sua religião – por ser alguém com bastante experiência e conhecimentos da doutrina -, explica que os Testemunhas de Jeová utilizam a Bíblia como o principal meio de se definir o estilo de vida que as pessoas devem seguir, já que o livro sagrado representa todos os ensinamentos que Deus e Jesus deixaram ao mundo. Portanto, como na Bíblia não estão descritos nem o dia e nem o mês em que Jesus nasceu, eles descartam a celebração do Natal. “O motivo para a gente não acompanhar esse costume é porque o Natal não é uma festividade cristã, pois tem origem pagã. A Bíblia orienta para não acompanhar esse tipo de festividade”, declara Furquim.

Relatos bíblicos
Para poder explicar melhor esse costume dos Testemunhas de Jeová, o aposentado utiliza relatos da própria Bíblia e de outras publicações, como forma de tentar provar que Jesus realmente não nasceu no dia 25 de dezembro. De acordo com Furquim, no evangelho de Lucas, capítulo 2, existem relatos de que na época do ano em que nós conhecemos como dezembro, na Palestina – onde Jesus nasceu – fazia muito frio, inclusive com ocorrências de geadas. A Bíblia ainda informa que os pastores estavam nos campos na data de nascimento do Messias, o que seria impossível, segundo ele, se isso tivesse acontecido em dezembro, por conta da baixas temperaturas.

Fidelis ressalta que o Natal, da forma e na data em que é comemorado , tem origem pagã - Por: Erick Pinheiro

Fidelis ressalta que o Natal, da forma e na data em que é comemorado , tem origem pagã – Por: Erick Pinheiro

Com isso, o aposentado então mostra como surgiram as comemorações do Natal, atribuindo essa data ao nascimento de Jesus Cristo. Ele utilizou relatos descritos na Enciclopédia Barsa e na Nova Enciclopédia Católica, que demonstram que a celebração do nascimento de Cristo no dia 25 de dezembro surgiu no ano 354, aparecendo pela primeira vez no calendário de Philocalus. Segundo explica Furquim, naquela época existia uma comemoração do nascimento do Sol no Egito, que era significada pelo solstício de inverno, ou seja, em 25 de dezembro era quando o Sol voltava a nascer naquela região, depois daqueles povos enfrentarem um rigoroso inverno. Essa data do solstício de inverno também era celebrada em Roma. “Então a ideia foi cristianizar essas festas que já existiam”, conclui Furquim.

Sem árvore e sem ceia
Seguindo todas essas informações, baseadas nos estudos dos Testemunhas de Jeová, as comemorações do Natal são deixadas de lado entre a família de Fidelis Furquim Neto. Em sua casa, na Vila Garcia, em Votorantim, não são encontrados os tradicionais enfeites natalinos, como guirlandas e árvores de Natal, ao contrário do que se vê nas ruas de Sorocaba, em lojas e nos shoppings, por exemplo. Ele conta que nenhuma comemoração é feita na véspera e no dia de Natal, nem mesmo um jantar especial em família é organizado, já que ele e sua família acreditam que isso seria uma forma de celebrar essa data, considerada pagã pelos Testemunhas de Jeová. “Será que Jesus estaria de acordo com as pessoas estarem comemorando uma data em que ele não nasceu?”, questiona a esposa do ancião, a aposentada Maria Helena Mendes Furquim, 67 anos.

Sua filha, a vendedora Cíntia Beatriz Furquim de Pontes, 36 anos, nunca comemorou o Natal, já que desde que nasceu, seus pais já eram Testemunhas de Jeová. Segundo a vendedora, por esse motivo ela nunca sentiu falta de ser presenteada nessa data, nem mesmo de celebrar com um jantar especial. “Hoje as pessoas comemoram mais por questão de comércio”, relata Cíntia. Ela tem um filho de 10 anos com o químico José Francisco de Pontes, 46 anos. O menino Matheus Germano Furquim Pontes diz encarar essa questão de não comemorar o Natal com naturalidade, mesmo que entre os seus amigos de escola, por exemplo, essa data seja lembrada pela troca de presentes. “Mesmo que eu não ganhe presentes no Natal, eu não reclamo, porque eu já ganho presentes o ano todo”, diz.

O aposentado explica que, mesmo que os Testemunhas de Jeová tenham um comportamento diferente da maioria das pessoas – pois o assunto “Natal” é abordado fortemente nessa época do ano, seja pelo comércio ou por diversos tipos de entidades, por exemplo -, quando os seus amigos de outras denominações religiosas sabem que ele e sua família não comemoram o Natal, a aceitação é respeitosa. “Muitos aceitam nossa explicação, mas para alguns outros, parece que entra por um ouvido e sai pelo outro”, revela.

Link original: http://www.cruzeirodosul.inf.br/acessarmateria.jsf?id=438135

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