Auschwitz, um dia de cada vez, por Ester Mucznik (Portugal)


O campo de extermínio de Auschwitz, pelo horror que simboliza, tem sido objeto de muita investigação histórica, basta recordar o importante livro de Laurence Rees que serviu de base para uma importante série da BBC, e que foi dado à estampa entre nós pelas Publicações Dom Quixote, em 2005. Mas a relação de obras é inumerável. Tem pois todo o sentido a própria Ester Mucznik se perguntar se era útil mais um livro sobre Auschwitz. Ela aceitou o desafio considerando que Auschwitz, como realidade e como conceito é inesgotável: “os seus mortos continuam a atormentar as consciências e a sua existência permanece um interminável questionamento”. E explica o âmbito do seu trabalho: “Decidi centrar-me sobre Auschwitz, que contém em si todos os principais tipos de campos do universo concentracionário alemão: campo de trabalho e concentração, campo de prisioneiros de guerra, campo de extermínio. Auschwitz que, melhor do que qualquer um espelha a política racial nazi e a sua megalómana e apocalíptica ambição de poder, simbolizada pela presença de prisioneiros de todas as línguas de Europa. Que, com os seus perto de um milhão e meio de mortos simboliza numa só palavra e num só espaço toda a criminalidade do regime nazi”.

E há que reconhecer que Auschwitz, por Ester Mucznik, A Esfera do Livros, 2015, consegue a singularidade na sua obra de divulgação graças às impressões pessoais da autora, aos depoimentos que obteve e à arquitetura da obra como narrativa de um mundo histórico dos campos de concentração que surgiram desde a ascensão de Hitler ao poder e que foram evoluindo na trepidação dos acontecimentos depois da conquista de meia Europa e o avanço galopante dentro da União Soviética que obrigou a hierarquia nazi a encontrar uma resposta para os judeus aprisionados e metidos em guetos. Daí a Solução Final para a questão judaica em campos de extermínio recorrendo ao assassinato em massa. O crescimento de Auschwitz e dos seus campos é rigorosamente comentado. Há aspetos que autora releva para nos procurar fazer entender um mundo perverso e desumano que se instituiu naquele ponto da Polónia, ilustrando o sadismo e a corrupção, o fanatismo, a organização metódica do funcionamento dos fornos crematórios, do aproveitamento dos bens das vítimas e da transformação em matérias-primas dos seus corpos, o macabro das orquestras, e a babel instaurada entre judeus, prisioneiros de guerra soviéticos, criminosos que tinham frequentemente funções de enquadramento dos outros preços, prostitutas e ciganos, homossexuais e Testemunhas de Jeová.

O crime metódico incluía a utilização nas condições mais brutais dos prisioneiros pondo-os a trabalhar como escravos. Auschwitz era campo de extermínio mas também de reserva de mão-de-obra escrava. Hoess, que foi comandante de Auschwitz escreveu nas suas confissões antes de morrer por enforcamento: “Cada prisioneiro era obrigado a servir as necessidades da guerra, a transformar-se num operário do armamento, e cada comandante tinha de explorar o seu campo nesse único objetivo”. Criou-se uma zona de quarenta quilómetros onde milhares e milhares de prisioneiros trabalhavam na construção e na indústria. As tenebrosas SS, relembra a autora, também contribuíram para o esforço de guerra dos campos de concentração com as suas próprias empresas: cimenteiras, terraplanagem, produtos alimentares ou madeiras eram algumas das áreas a que se dedicavam numa proveitosa relação com os administradores dos campos: “Os prisioneiros que trabalhavam para as SS não duravam muito tempo: eram obrigados a descarregar as batatas, a correr ou subir as ladeiras com os carrinhos de mão a abarrotar de pedras. Tinham de carregar com pesados cabos de borracha ou trabalhar em pedreiras. Os que não conseguiam manter o ritmo eram simplesmente abatidos”.

Temos aqui uma impressionante obra de divulgação sobre genocídio, extorsão, torturas de falso experimentalismo médico. A viagem prossegue sobre os modos de sobrevivência depois do fim da guerra e acompanhamos o traçado da memória para que não se esqueçam as cinzas das vítimas nos crematórios do Holocausto. A autora pretendeu contribuir para o reconhecimento da mais inconcebível tragédia do século XX, na procura de detetar os indícios da terrível continuidade histórica que levou ao Holocausto. É trabalho incompleto, como ela reconhece, ainda há muito terreno para desbravar sobre os sentimentos antijudaicos que conduziram ao crime nazi, daí o medonho silêncio que urge descodificar e compreender.

Link original: http://www.oribatejo.pt/2015/03/12/auschwitz-um-dia-de-cada-vez-por-ester-mucznik/

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