Olga Benario serviu à SS como blockova no campo de concentração nazista de Ravensbrück


Por Euler de França Belém

Mesmo tendo trabalhado para os nazistas, a mulher de Luiz Carlos Prestes não agia de modo cruel com as prisioneiras. A comunista procurava protegê-las

Olga Benario foi entregue pelo governo de Getúlio Vargas aos nazistas, em 1936, e morreu, possivelmente gaseada, em 1942, no manicômio de Bernburg, na Alemanha. Ela deixou uma filha, a doutora em história Anita Leocádia Prestes

Olga Benario foi entregue pelo governo de Getúlio Vargas aos nazistas, em 1936, e morreu, possivelmente gaseada, em 1942, no manicômio de Bernburg, na Alemanha. Ela deixou uma filha, a doutora em história Anita Leocádia Prestes

A alemã Olga Benario Prestes (1908-1942), agente de Ióssif Stálin, acompanhou o capitão Luiz Carlos Prestes ao Brasil para or­ganizar a revolução comunista nos trópicos. Entretanto, o Partido Comu­nis­ta havia dado informações falsas aos líderes da União Soviética, pois não havia a mínima estrutura organizacional para derrubar o presidente Getúlio Vargas e tomar o poder, nos moldes da Revolução de 1917 na Rússia. O golpe manqué de 1935, conhecido como Intentona Comu­nista, resultou na prisão de vários comunistas, inclusive de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario. Nesse período, Getúlio Vargas e alguns de seus aliados, como Filinto Müller, Góes Monteiro e Eurico Gaspar Dutra, mesmerizados pelo führer da Alemanha, Adolf Hitler, entregaram a judia e comunista Olga Benario aos nazistas. A história está contada em dois livros, “Olga” (Companhia das Letras, 328 páginas), do brasileiro Fernando Morais, e “Olga Benario — A História de uma Mulher Corajosa” (Alfa-Omega, 304 páginas, tradução de Reinaldo Mestrinel), da alemã Ruth Werner.

Olga Benario foi levada para Ravensbrück, o campo de concentração exclusivo para mulheres (“a capital dos crimes contra as mulheres”; por lá passaram cerca de 130 mil pessoas do sexo feminino), situado na Alemanha, e lá teve sua filha, Anita Leocádia Prestes — nascida em novembro de 1936; mais tarde, historiadora radicada no Rio de Janeiro, autora de vários livros —, e, em seguida, foi assassinada pela SS. O livro “Ravensbrück — A História do Campo de Concentração Nazistas Para Mulheres” (Record, 922 páginas, tradução de Cristina Ca­valcanti), da jornalista e escritora inglesa Sarah Helm, apresenta novas informações sobre a vida da comunista no campo e a respeito de sua morte.

Filha da classe média, Olga Benario rebelou-se aos 14 anos e fugiu de casa, tornando-se marxista e integrante de uma célula comunista. Ativa e corajosa, liderou um movimento para libertar um comunista, em 1928, livrando-o da morte certa. No ano seguinte, os comunistas alemães levaram-na para Moscou, para treiná-la como agente bolchevique de elite. Da União Soviética, foi enviada pelo Comintern (a organização comunista internacional) para o Brasil, ao lado de Luiz Carlos Prestes, para organizar a revolução que, do país, se espalharia pela América Latina, como um rastilho de pólvora. Eram precursores do argentino Che Guevara.
O governo de Getúlio Vargas, com informações da Inteligência inglesa, desbaratou o golpe comunista e prendeu Olga Benario e Luiz Carlos Pres­tes. Sarah Helm sustenta que Elise Ewert e Olga Benario foram enviadas a Hitler “como presente”. Em Sou­tham­pton, comunistas tentaram resgatá-la, mas a Inteligência britânica impediu.

Do porto de Hamburgo, Olga Be­na­rio foi encaminhada para a prisão de Barnimstrasse, em Berlim. Nesta penitenciária, deu a luz Anita Leocádia Pres­tes. A esquerda desencadeou um mo­vimento transnacional para libertá-la. “O caso atraiu ampla atenção, principalmente porque o pai da bebê era o famoso Luiz Carlos Prestes. A coragem de Olga e sua beleza morena e graciosa contribuíram para a comoção que a história provocou”, relata Sarah Helm.
A cúpula da Gestapo tentou entregar Anita Leocádia para sua avó materna, Eugenia Benario, que não quis cuidar da bebê. “Himmler então permitiu que a mãe de Prestes, Leocádia, levasse Anita, e em novembro de 1937 a avó brasileira foi buscar a bebê na prisão de Barnimstrasse.” Olga Benario, que ficou na cadeia, escreveu para a mãe de Luiz Carlos Prestes: “Perdoe-me pelo estado das coisas de Anita. Você recebeu a minha descrição da sua rotina e da sua tabela de peso? Fiz a tabela o me­lhor que pude. Os seus órgãos in­ternos estão bem? E os ossos — as suas perninhas? Talvez, no primeiro ano de vida, ela sofra devido às circunstâncias extraordinárias da minha gravidez”.

Durante a construção de Ra­vensbrück, várias mulheres foram trancafiadas em Lichtenburg. Entre elas, levada pela Gestapo, estava Olga Benario, vista como uma participante, já lendária “dos dias gloriosos da resistência comunista”. Tida como uma guerreira fria e determinada, estava alquebrada pela separação da filha. As camaradas comunistas tentaram confortá-la dando-lhe pequenos presentes. O poderoso chefão de Lichtenburg, Max Koegel, espancava as mulheres com frequência. As testemunhas de Jeová, resistentes às ordens nazistas, eram as mais agredidas pelos guardas. “No outono de 1939, elas eram mais da metade das mulheres no campo.”

Anita Leocádia Pretes, filha de Olga Benario, com o pai, Luiz Carlos Prestes, aos 9 anos de idade

Anita Leocádia Pretes, filha de Olga Benario, com o pai, Luiz Carlos Prestes, aos 9 anos de idade

Ravensbrück era uma aldeia, no subúrbio de Fürstenberg, a 80 quilômetros de Berlim, com acesso fácil por ferrovia e rio. A construção do campo na região foi uma decisão de Heinrich Himmler, que considerou até a beleza do lugar. Enquanto os nazistas edificavam-no, Olga Benario ainda tinha esperança de que pudesse ser liberada. A mãe, Leocádia, e a irmã, Lygia, de Luiz Carlos Prestes organizaram uma cruzada mundial por sua libertação.
Numa carta para Luiz Carlos Prestes, Olga Benario diz: “A primavera por fim chegou e as pontas verdes-claras das árvores observam inquisitivamente por cima do pátio da prisão. Mais do que nunca desejo um pouco de sol, beleza e sorte. Algum dia estaremos reunidos com Anita-Leocádia, felizes os três? Perdoe-me por pensar assim, sei que preciso ser paciente”.

As primeiras prisioneiras chegaram a Ravensbrück em 15 de maio de 1939. Eram 867 mulheres. Os nazistas registravam-nas como prostitutas, mendigas, delinquentes, lésbicas, criminosas contumazes, prisioneiras políticas, testemunhas de Jeová, judias, ciganas. O tratamento no campo era brutal. As judias, sobretudo as comunistas, que eram mais rebeldes e articuladas, sofriam com frequência na solitária. Ilse Gostynski viu Olga Benario no campo, depois que ela deixou a solitária, e contou que era “uma jovem muito bela, muito inteligente. Em Ravensbrück foi maltratada, não tinha quase nada para comer”. Solidária, Hanna Sturm deu-lhe biscoitos e pão que arrecadou com outras presas.

Logo depois, Ilse Gostynski foi solta pelos nazistas e sobreviveu. Sarah Helm informa que “talvez o aspecto ‘normal’ mais surpreendente do campo fosse que, mesmo com o aumento da brutalidade, as prisioneiras eram soltas regularmente”. Em julho de 1939, as prisioneiras deram pela falta de Olga Benario. “Ela provavelmente deixou o campo em julho de 1939 não para ser interrogada, mas porque a Gestapo tinha concordado em libertá-la. A prova de que estava a ponto de ser solta provém em parte de um informe da Gestapo sobre as circunstâncias da sua saída de Ravensbrück”, anota a autora do livro. A comunista estava bem vestida, com roupas civis, o que era um prenúncio de que seria libertada.

Leocádia e Lygia Prestes continuaram a batalha internacional pela libertação de Olga Benario. Depois de enviar várias cartas ao governo alemão, as brasileiras recebem uma mensagem do escritório de emigração judeu-alemão, que informava que “a Gestapo es­tava disposta a libertar Olga ‘com a condição de que ela emigre imediatamente para ultramar’”. Elas foram in­formadas de que deveriam solicitar “um visto para Olga ‘ao México o mais rápido possível”. Leocádia conseguiu um visto mexicano e o enviou para a Alemanha. O governo alemão não acusava o recebimento do visto, que havia sido enviado via Estados Unidos.

À espera da “salvação”, Olga Benario recomenda que Leocádia Prestes vista Anita Leocádia Prestes com roupas comuns. “Ela não deve pensar que é especial”, ordena a comunista ortodoxa.

Em agosto de 1939, antes do início da Segunda Guerra Mundial, Olga Benario, presa em Berlim, espera pelo visto de emigração. Ao ler num jornal alemão que a batalha era iminente, quedou-se desanimada. “Não se zangue comigo, mas estou profundamente pessimista”, escreveu para Leocádia Prestes, em 15 de agosto. Em Ra­vensbrück, Hanna Sturm foi espancada e torturada porque, com suas camaradas, recitou trechos das obras do russo Liev Tolstói, autor dos romances “Guerra e Paz” e “Anna Kariênina”.

Com o início da Segunda Guerra Mundial, em 1º de setembro de 1939, Olga Benario retorna para Ra­vensbrück, em 8 de setembro. Apesar de o visto mexicano ter finalmente chegado, não havia mais como sair da Alemanha. “Considerada menos ame­açadora (por motivos não explicados), as condições do seu confinamento passaram a ser menos severas do que antes; Olga tinha água e comida regularmente e podia receber correspondência”, regista Sarah Helm. Hanna Sturm passava fome na solitária e foi alimentada pela solidária Olga Benario.

Olga, a blockova
Prisioneiras eram recrutadas, em Ravensbrück, para ajudar na administração do campo. Presas eram escaladas como blockovas, chefe de bloco, e stubovas, chefe de alojamento, para “ajudar a SS” a controlar as demais presas. Margot Kaiser era lagerälteste, ou prisioneira chefe, e matou “ao menos dez mulheres a pancadas”. Detentas chegaram a disputar os cargos porque recebiam “roupas melhores, mais comida e uma cama própria”.
Como o bloco das judias era caótico — eram 10% do total de mulheres, mas estavam entre as mais maltratadas —, a nazista Johanna Langefeld procurou recrutar uma blockova ativa e durona.

Johanna Langefeld detestava os judeus, mas Olga Benario, “uma figura bela e atraente até mesmo de uniforme listrado”, agradou-a. “Tirou-a da fila, ordenou que ficasse atentamente na posição de sentido e anunciou que ela seria a nova blockova do bloco das judias. Até então, a nenhuma prisioneira política — judia ou não judia — tinha sido ofertado o cálice envenenado do comando das companheiras presas.” A companheira de Luiz Carlos Prestes era a exceção.

Por que Olga Benario, uma judia co­munista, foi escolhida para ser uma agente da SS, uma blockova, em outubro de 1939? Sarah Helm assinala que não se sabe, porque “a SS queimou todos os documentos sobre a indicação de kapos e outras informações sobre prisioneiras que trabalharam” como auxiliares dos nazistas na administração de Ra­vensbrück. Os relatos das prisioneiras, avalia a pesquisadora, são insuficientes.

O fato é que, como blockova, Olga Benario esteve a serviço da SS no campo de Ravensbrück. Sarah Helm sublinha que sua função era “pôr em prática as ordens da SS”. A informação, incômoda para a esquerda, tem sido relativizada pelos historiadores comunistas. “Para ‘dourar a pílula’ da indicação de Olga”, historiadores de esquerda “omitiram que o trabalho vinha com privilégios e inventaram que assumi-lo não indicava colaboração, e sim que a SS não já não tinha como dobrá-la”, escreve Sarah Helm.

Olga Benario, relata Sarah Helm, estava alquebrada, desesperançada. Suas camaradas comunistas, como Hanna Sturm e Joska Jaburkova, estavam devastadas. “E a fé em Stálin havia sido abalada com a notícia do pacto com Hitler. Olga também tinha uma dor particular. Há anos ela havia rejeitado a condição de judia, mas agora tudo o que lhe acontecia derivava dessa condição.”

O livro da jornalista Sarah Helm, com quase mil páginas, é um poderoso resgaste da história do campo de concentração de Ravensbrück, “a capital dos crimes contra as mulheres”. Olga Benario, casada com o brasileiro Luiz Carlos Prestes, esteve na unidade nazista

O livro da jornalista Sarah Helm, com quase mil páginas, é um poderoso resgaste da história do campo de concentração de Ravensbrück, “a capital dos crimes contra as mulheres”. Olga Benario, casada com o brasileiro Luiz Carlos Prestes, esteve na unidade nazista

Ao contrário dos historiadores de esquerda, Sa­hah Helm sugere que “Ol­ga poderia ter recusado o trabalho de blockova; ela de­monstrara ser capaz de de­safios semelhantes no passado”. A pesquisadora res­salva: “Mas aquilo tinha sido antes de se tornar mãe. Caso recusasse, poderia ser fuzilada ou trancafiada em um bunker sem re­ceber correspondência, sem notícias de Anita. Se hou­vesse outra chance de emigrar, ela ficaria sem saber”.

Como blockova, Olga Benario podia ler jornal “e circular e ver as amigas”. Ela escreveu para Luiz Carlos Prestes: “As poucas semanas em Berlim me fizeram recordar que o mais difícil é estar só. Aqui tenho camaradas que
se preocupam com o que como. Você caminha [ele estava numa solitária] — faz exercícios? Fico deprimida ao pensar que você está só. Sonho sempre com você e a pequena [Anita], mas pela manhã o despertar é amargo”.

Como blockova, Olga Benario acordava as detentas, sacodindo as que não queriam se levantar, informando-as que, se não o fizesse, apanhariam das guardas. Ela grita: “Para fora, para fora”. É o sinal para as prisioneiras saírem para trabalhar. Entre suas funções estava a de servir a sopa e contar as mulheres. As exaustas caem e são espancadas. “Olga fica de pé e assiste à cena em que a guarda Fraede as espanca.” Sarah Helm não apresenta evidências de que Olga Benario, a serviço da SS em Ravensbrück, agisse com brutalidade com as prisioneiras; pelo contrário, procurava ajudá-las, orientando-as a escapar da violência das guardas. “Circulando pelos blocos, Olga chega a conhecer melhor as mulheres e elas passam a conhecê-la e a esperar suas visitas; até as ‘burguesas’ vienenses param de chamá-la de vermelha e vaca bolchevique porque ela as ajuda, ensina-as a comer devagar para matar a fome e a se despiolharam entre si. ‘Não desistam’, diz. ‘Juntem-se para ficar aquecidas’.”

Como blockova, Olga Benario tem direito a papel e, a partir de informações colhidas no jornal nazista “Völkischer Beobachter”, “desenha mapas em miniatura para as mulheres acompanharem o avanço da guerra”. Sarah Helm revela que desenhava “muito bem e as mulheres do bloco” admiravam seu talento.

Protesto e morte
Em novembro de 1939, as prisioneiras judias foram isoladas. “As portas foram travadas e as janelas tapadas com tábuas.” Por isso as cartas de Olga Benario cessaram. A guarda Emma Zimmer castigava as presas de maneira impiedosa. “Quase enlouquecemos de terror”, relatou a sobrevivente Ida Hirschkron. “O pesadelo se estendeu por três semanas, e certamente teria durado mais se Olga não tivesse agido. ‘Então a nossa blockova Olga Benario-Prestes ousou pedir a Zimmer que pusesse fim àquela situação insuportável’. Aquilo foi de um atrevimento sem precedentes. Até então, nenhuma prisioneira, e certamente nenhuma blockova, tinha ousado confrontar uma guarda e, segundo Ida, o protesto de Olga enfureceu Zimmer”, anota Sahan Helm. A guarda ameaçou mas Koegel impediu que as judias fossem fuziladas. Em seguida, as prisioneiras foram “buscar ferramentas e, depois, cavoucar areia”. As guardas colocavam cachorros para atacar as prisioneiras, que ficavam muito feridas.

O motivo do isolamento e espancamento das judias tinha a ver com o fato de que o marceneiro Georg Elser havia tentado matar Hitler. “Em vingança, os judeus nos campos de concentração foram punidos.” O protesto de Olga Benario, cobrando o fim do confinamento, foi co­rajoso. “Como resultado do seu protesto, a punição foi suspensa e as portas foram abertas.”

Quase no final de dezembro de 1939, Olga Benario volta a escrever para Leocádia e Lygia Prestes. A comunista continuava como blockova, sinal de que era eficiente e disciplinadora (o que não significa que fosse cruel). Certa feita, permitiu que uma menina cigana, de 3 anos, dormisse um pouco mais, porque estava doente. Johann Kantschuster, da SS, “agarrou a criança pelos cabelos, levou-a para o lago e a afogou”.

Quando Margarete Buber-Neumann chegou a Ra­vens­brück e contou as barbaridades do Gulag de Stálin, as comunistas, chocadas e irritadas, decidiram boicotá-la. “Olga Benario propôs que Grete levasse bola preta e o comitê comunista concordou.” Mesmo num campo de concentração, o stalinismo vigorava. Ressalve-se que Judith Buber Agassi, filha de Margarete Buber-Neumann, não acredita que a bola preta tenha sido articulada por Olga Benario. “Minha mãe sempre expressou admiração por Olga.” Mas Judith Buber Agassi confirma que as comunistas a trataram mal.

Em 1940, entre julho e novembro, por ter participado da encenação de uma peça de teatro, Olga Benario foi levada para o bunker e, depois, perdeu o posto de blockova. Passou a descarregar tijolos e, como as outras mulheres, ficou com as mãos feridas. Ao contrário das outras, as judias não podiam ser atendidas. “O médico chefe, Walter Sonntag, se recusava a tratar judeus.” Mas certa vez deixou Olga Benario usar luvas. Porém, quando a comunista carregou nos braços uma mulher doente e magérrima, levando-a ao hospital, Sonntag começou a gritar: “Porca judia” e “puta judia”. “Ele chutou Olga e a derrubou junto com a mulher que carregava. Ol­ga foi duramente espancada” e ficou várias semanas na solitária do bunker.

Em dezembro de 1940, Leocádia Prestes enviou uma fotografia de Anita Prestes para Ravensbrück. Olga Benario continuava lendo jornais, de maneira clandestina, “e começou a escrever um minijornal do campo em pedaços minúsculos de papel”.

Em maio de 1941, voltou a escrever a Luiz Carlos Prestes: “Do outono à primavera a gente sobrevive com base na esperança, depois olha para adiante novamente, para o próximo inverno. Por quanto tempo mais? Essa é a única pergunta urgente”. Em setembro, parou de escrever. “É quase certo que Olga tenha passado aquele verão na solitária escura do bunker, incapaz de escrever ou receber cartas, e muito só”, frisa Sarah Helm.

Passaporte de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario, agente de Stálin, quando vieram para o Brasil com o objetivo de organizar uma revolução comunista

Passaporte de Luiz Carlos Prestes e Olga Benario, agente de Stálin, quando vieram para o Brasil com o objetivo de organizar uma revolução comunista

A SS estava satisfeita com o apoio das prisioneiras para gerir o campo. As presas políticas eram auxiliares eficientes. Mas a SS começou a matar algumas detentas. Em dezembro, Olga Benario escreveu a Luiz Carlos Prestes: “Só espero ter a força mental e as condições físicas necessárias para ser capaz de aguentar o inverno que se aproxima. A questão é só se este será o meu último”.

Hitler ordenara, em outubro de 1941, “a deportação de todos os judeus alemães”. Famílias inteiras estavam desaparecendo. Em Ravensbrück, mulheres estavam sendo selecionadas para os campos de extermínio na Polônia, como Auschwitz.

Em fevereiro de 1942, quando disseram que estavam reunindo as prisioneiras na casa de banho, Olga Benario disse às companheiras: “Isto é o fim. (…) É um transporte de extermínio”. “Maria Wiedmaier lembrou: ‘Olga disse que, se aquilo ‘fosse a morte certa’, ela tentaria escapar”. E, de fato, chegou a ordem: “Prepare as mulheres para o transporte”.

Sarah Helm revela que “as primeiras a deixar os blocos foram as judias, mas nem todas foram chamadas. Dentre as que ficaram estava Olga Benario”. As mulheres foram levadas em caminhões. As doentes foram as primeiras a serem transportadas. Judias que estavam sãs também foram levadas. Mas muitas, como a mulher de Luiz Carlos Prestes, ainda ficaram.
Olga Benario foi levada pela SS provavelmente depois de 19 de fevereiro de 1942. “Neste dia, ela escreveu carta para Lygia e Leocádia, colocando dentro do envelope uma para Luiz Carlos.” Desesperada, pede que continuem lutando por sua emigração.
Quando os nazistas a levaram, Olga Benario disse para Bertha Teege: “Se chegar ao ponto de que nos queiram matar, eu vou lutar”. É praticamente certo que a judia comunista tenha sido assassinada no centro de gaseamento do manicômio de Bernburg (cidade alemã ao sul de Berlim). Ela tinha 34 anos. A mãe de Olga, Eugenia, e o irmão, Ernst, “foram gaseados em Auschwitz”. ­ l

Carta de Olga Benario para Luiz Carlos Prestes

Meu querido Karli,

Acabei de receber sua carta de 12 de outubro. Admiro como você está progredindo no alemão e fico realmente sensibilizada com seus esforços. Recentemente, nossa correspondência ficou de novo prejudicada, e também não tive a possibilidade de escrever. Mas ambos sabemos que nossa relação não se abate com dificuldades externas.

No momento, tenho prazer pelo fato de os dias serem mais longos, esperando que o inverno termine logo. Você pode ter certeza de que jamais janeiro e fevereiro foram tão compridos como os atuais. Deve estar um calor de rachar onde você se encontra agora. Você está muito magro? E quanto aos cabelos grisalhos? O que você está lendo? As cartas são os únicos momentos felizes para mim, só que elas têm chegado cada vez menos nos últimos meses. Leio e releio a descrição do terceiro aniversário de Anita [em 27 de novembro]. Estranho, no entanto, que em meus sonhos ela teima em aparecer como o bebê que conheci, e não como a garotona que está crescendo no México. Tínhamos tanta coisa a debater sobre o modo de a criarmos… Como sempre, abraço-o com todo o meu amor, com todo o meu coração.

Sua Olga

Nota da redação: Na nota 8 (página 859), a respeito do capítulo Bernburg, Sarah Helm escreve: “Na biografia ‘Olga’, Fernando Morais cita uma última carta, na qual Olga teria dito ‘adeus’ e teria falado de ‘se preparar para a morte’. Porém, nos arquivos não há resquícios dessa carta e sua autenticidade é duvidosa”. Uma das principais fontes da escritora e jornalista britânica é Anita Leocádia Prestes, a filha de Olga Benario e Luiz Carlos Prestes. Ela é doutora em história e fará 81 anos no fim deste ano

Link original: http://www.jornalopcao.com.br/colunas-e-blogs/imprensa/olga-benario-serviu-ss-como-blockova-no-campo-de-concentracao-nazista-de-ravensbruck-91484/

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One response to this post.

  1. Posted by Ricardo on 25/05/2017 at 00:37:05

    Olga teve o que mereceu,esse é o destino que todo comunista deveria ter.

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