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[Brasil Escola] Cinco fatos sobre a Segunda Guerra Mundial


A Segunda Guerra Mundial foi o maior evento que aconteceu ao longo do século XX. Deixou um rastro de destruição e morte ao longo dos anos do conflito.

Tropas aliadas desembarcando nas praias da Normandia durante o Dia D, em 1944

Tropas aliadas desembarcando nas praias da Normandia durante o Dia D, em 1944

A Segunda Guerra Mundial foi o maior conflito da história da humanidade em questões de intensidade, recursos financeiros e humanos mobilizados e pela quantidade de vítimas. Ao longo dos seis anos de conflito, a violência espalhou-se por diferentes continentes, resultando na morte de aproximadamente 70 milhões de pessoas.

Grandes destaques dos anos da Segunda Guerra Mundial foram a construção de campos de concentração pela Alemanha Nazista, sobretudo na Polônia, que tinham o objetivo de escravizar e exterminar judeus, ciganos, testemunhas de jeová, homossexuais etc. Além disso, durante a Segunda Guerra Mundial, foram utilizadas pela primeira vez armas atômicas, lançadas pelos EUA contra as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki.

A respeito da Segunda Guerra Mundial, separamos algumas curiosidades e fatos pouco explorados:

1) Campos de concentração nos EUA
Durante a Segunda Guerra Mundial, foram criados nos Estados Unidos dez campos de concentração em diferentes partes do país para abrigar a população de nipo-americanos. A construção desses campos de concentração foi resultado da histeria de guerra que fortaleceu a xenofobia contra cidadãos de descendência japonesa.

A xenofobia contra cidadãos nipo-americanos era algo que existia nos Estados Unidos pelo menos desde o início do século XX e fortaleceu-se após os Estados Unidos terem sido atacados pelo Japão em Pearl Harbor, no ano de 1941. Ao todo, mais de cem mil pessoas foram realocadas nesses campos de concentração e encontraram péssimas condições de vida nesses locais. O último campo de concentração nos Estados Unidos foi desativado em 1946.

2) Unidade 731
Durante a Segunda Guerra Mundial, o Japão, orientado pelo seu nacionalismo xenófobo e seu militarismo radical, cometeu uma série de crimes de guerra. Um dos locais onde várias pessoas foram vítimas da brutalidade cometida pelo exército japonês foram as instalações da Unidade 731. Essa unidade foi criada com o nome de “Unidade de Proteção Epidêmica e Abastecimento de Água do Exército Kwangtung” e tinha como função primordial fazer o controle de qualidade da água utilizada pelo exército japonês baseado na China.

No entanto, secretamente, a Unidade 731 foi utilizada pelo exército japonês para promover uma série de estudos macabros em cobaias humanas vivas e promover estudos para o desenvolvimento de armas químicas e biológicas. Assim, conforme afirmação do historiador Max Hastings:

Milhares de chineses capturados foram assassinados em testes feitos na base da unidade, perto de Harbin, muitos submetidos a vivissecção sem o benefício de anestésicos. Algumas vítimas eram amarradas em estacas para que bombas de antraz fossem detonadas à sua volta. Mulheres eram infectadas com sífilis em laboratório; civis da região eram sequestrados e injetados com vírus fatais|1|.

Os envolvidos com os experimentos da Unidade 731 não foram punidos como criminosos de guerra como parte de um acordo realizado entre os EUA e os médicos.

3) Traidor Quisling
Em abril de 1940, os nazistas colocaram fim a meses de marasmo e iniciaram a invasão da Noruega. A invasão da Noruega havia sido autorizada após adiamento duplo da operação que conduziria a invasão da Holanda, Bélgica e França. Assim, a Noruega surgiu como alternativa para que os nazistas tivessem o controle sobre uma posição estratégica de apoio aéreo e que lhe garantiria acesso à produção de ferro da Suécia.

A invasão da Noruega pelos nazistas aconteceu após Hitler ter sido convencido pelo almirante Erich Raeder e pelo norueguês pró-nazista Vidkun Quisling. Quando os nazistas invadiram a Noruega, Quisling tornou-se chefe do governo colaboracionista por um breve tempo e a atuação de Quisling em convencer Hitler a invadir seu próprio país fez com que seu sobrenome “Quisling” se transformasse em um substantivo na língua inglesa para se referir a pessoas traidoras ou que se voltam contra seu próprio país.

4) O massacre dos judeus de Kiev
Um dos episódios mais tristes de toda a Segunda Guerra foi o holocausto, responsável pela morte de 6 milhões de pessoas, na maioria de origem judia. Ao longo da guerra, os nazistas criaram diferentes mecanismos e formas de encontrar e exterminar os judeus, sobretudo no Leste Europeu. Em um primeiro momento, os nazistas utilizavam-se do Einsatzgruppen, esquadrões da morte responsáveis por localizar e executar todos os judeus das áreas que atuavam.

Um evento particular relacionado com a atuação do Einsatzgruppen aconteceu na cidade de Kiev, à época pertencente à União Soviética (atual Ucrânia). Logo após a conquista da cidade, um prédio ocupado pelos nazistas foi atacado a bomba, o que enfureceu os nazistas. Como represália, o comando nazista local autorizou a execução de todos os judeus que ainda habitavam em Kiev.

Os relatos contam que os nazistas reuniram uma multidão de judeus em uma parte da cidade e iniciaram um fuzilamento que, durante 36 horas, foi responsável pela morte de mais de 33 mil pessoas. Esse evento conhecido como “Massacre de Babi Yar” foi um dos maiores massacres que aconteceram durante a guerra, e os relatos contam que o local onde os corpos foram enterrados minou sangue durante meses.

5) Canhões gigantescos
Durante os anos do conflito, a máquina de guerra nazista trabalhou de maneira obstinada no desenvolvimento de armamentos mais eficazes para utilizar na guerra. A megalomania e a engenhosidade dos nazistas fizeram com que eles construíssem os maiores canhões que foram utilizados durante a Segunda Guerra Mundial.

Os canhões receberam o nome de Schwerer Gustav e Dora, e sua construção foi um pedido do comando nazista para que a Krupp – indústria de armamentos – construísse uma arma capaz de destruir as fortificações francesas da Linha Maginot. Os empenhos da Krupp levaram à construção desses dois canhões, que, nas palavras de um general nazista, eram uma “peça de engenharia extremamente impressionante, mas absolutamente inútil”|2|.

O Schwerer Gustav particularmente foi utilizado durante o cerco a Sebastopol, cidade soviética localizada na região da Crimeia em um combate que resultou na morte de 25 mil alemães e no uso de cinquenta mil toneladas de munição de artilharia|3|.

As atribuições do Schwerer Gustav eram:

  • Peso: 1350 tonelada
  • Cumprimento: aproximadamente 47 metros
  • Tripulação: 4.000 homens responsáveis pela montagem dos trilhos e manejo do canhão
  • Calibre: 800 milímetros
  • Peso dos projéteis: 7 toneladas
  • Alcance do disparo: 39 km a 47 km de distância
  • Cadência dos disparos: 1 disparo a cada 45 minutos, com máximo de 14 disparos por dia.

 

|1| HASTINGS, Max. Inferno: o mundo em guerra 1939-1945. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2012 p. 448.
|2| Idem, p. 319.
|3| Idem, p. 320.

Por Daniel Neves
Graduado em História

Link original: http://brasilescola.uol.com.br/historiag/cinco-fatos-sobre-segunda-guerra-mundial.htm

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[G1] ‘Colhíamos grama para minha mãe fritar com gordura’, diz sobrevivente do Holocausto radicado no Brasil


Romeno Joshua Strul relembra à BBC Brasil vida em gueto com família durante 2ª Guerra Mundial.

Por BBC

Romeno radicado no Brasil, Joshua Strul relembra vida em gueto com família durante 2ª Guerra Mundial (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

O romeno Joshua Strul tinha oito anos quando sua infância foi abreviada.

Em outubro de 1941, tropas aliadas aos nazistas chegaram à cidade de Moinești, na Romênia, onde ele, seus pais e seis irmãos ─ todos judeus ─ viviam.

Em poucas horas, a família foi despojada de todos os seus bens.

“Até então, tinha uma infância feliz e tranquila. Estudávamos, íamos à sinagoga e brincávamos como todas as crianças. O convívio com os católicos era pacífico”, recorda ele, atualmente com 85 anos, em entrevista por telefone à BBC Brasil.

Romeno radicado no Brasil, Joshua Strul relembra à BBC Brasil vida em gueto com família durante 2ª Guerra Mundial (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

Romeno radicado no Brasil, Joshua Strul relembra à BBC Brasil vida em gueto com família durante 2ª Guerra Mundial (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

“Mas o nazismo ganhava força na Europa e, quando as tropas chegaram à cidade, não tardou para perdemos tudo”, acrescenta.

Radicado em São Paulo desde a década de 1950, Strul é sobrevivente do Holocausto, como ficou conhecido o assassinato em massa de milhões de judeus, bem como homossexuais, ciganos, Testemunhas de Jeová e outras minorias, durante a 2ª Guerra Mundial, a partir de um programa de extermínio sistemático patrocinado pelo partido nazista.

Foi o maior genocídio do século 20 – uma ferida aberta que o tempo ainda não curou. Isso talvez explique a riqueza de detalhes com que Strul ainda relata sua experiência, pontuada por um sotaque ainda carregado, apesar da idade avançada.

 Joshua conheceu Manuela em um baile de Carnaval no Rio, em 1969 (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

Joshua conheceu Manuela em um baile de Carnaval no Rio, em 1969 (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

“Meu pai tinha uma loja de cereais. Perdemos tudo. Nos tiraram o comércio e a nossa casa. Minha família, assim como todos os judeus da cidade, foi levada a uma cidade próxima, Bacău, onde nos confinaram em um gueto”, diz.
Joshua, seu pai, sua mãe e seis irmãos viviam em Moinești, na Romênia (Foto: Gui Christ/BBC Brasil) Joshua, seu pai, sua mãe e seis irmãos viviam em Moinești, na Romênia (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

 Joshua, seu pai, sua mãe e seis irmãos viviam em Moinești, na Romênia (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

Joshua, seu pai, sua mãe e seis irmãos viviam em Moinești, na Romênia (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

Fome
Ali todos os judeus viviam em barracas de madeira – cobertas com folhas de zinco. Privados de sua liberdade, eram obrigados a ostentar uma estrela amarela nas roupas como identificação.

“No verão, era insuportavelmente quente. No inverno, um frio glacial”, conta. A fome também era uma constante.
Após ditadura comunista na Romênia, família emigrou para Israel (Foto: Gui Christ/BBC Brasil) Após ditadura comunista na Romênia, família emigrou para Israel (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

 Após ditadura comunista na Romênia, família emigrou para Israel (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

Após ditadura comunista na Romênia, família emigrou para Israel (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

  "A migalha de pão significava a vida ou a morte", diz Strul (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

“A migalha de pão significava a vida ou a morte”, diz Strul (Foto: Gui Christ/BBC Brasil)

“A migalha de pão significava a vida ou a morte. Colhíamos grama para minha mãe fritar com gordura de ganso. Foi assim que sobrevivemos”, diz.

“Meu irmão caçula, no entanto, não conseguiu enfrentar as condições adversas e morreu aos dois anos.”

‘Providência divina’
Por uma “providência divina”, como recorda Strul, a família não foi deportada para o campo de concentração de Auschwitz, na Polônia, um dos principais locais de extermínio de judeus durante a guerra.

Em 1944, a Romênia foi libertada por tropas soviéticas, mas o pesadelo ainda não tinha terminado. “Voltamos à nossa cidade-natal e nossa casa estava completamente depenada. Tudo nos foi roubado”, lamenta.

  "Quando tentávamos recomeçar do zero, mais uma vez nos tiraram tudo", diz Strul, após fim da 2ª Guerra Mundial (Foto: Gui Christ / BBC)

“Quando tentávamos recomeçar do zero, mais uma vez nos tiraram tudo”, diz Strul, após fim da 2ª Guerra Mundial (Foto: Gui Christ / BBC)

Com muito esforço, a família reconstruiu pouco a pouco a vida que tinha antes da guerra. Mas em 1947 os comunistas chegaram ao poder na Romênia. Propriedades particulares foram nacionalizadas e, de patrão, o pai de Strul se tornou empregado.

“Quando tentávamos recomeçar do zero, mais uma vez nos tiraram tudo.”

Em 1950, a família decidiu fazer as malas para um Estado recém-fundado, Israel, já que um dos irmãos de Strul havia emigrado para o país quatro anos antes e lutado na guerra de independência.

 Strul morou em Israel entre 1950 e 1955 (Foto: Gui Christ / BBC)

Strul morou em Israel entre 1950 e 1955 (Foto: Gui Christ / BBC)

Mudança para o Brasil
Mas o futuro parecia mais promissor fora do Oriente Médio.

Por meio de um conhecido da família, que já havia se estabelecido no Brasil, os Strul embarcaram em um navio rumo a uma terra então totalmente desconhecida.

“Foi uma viagem longa, na 3ª classe do navio, porque a 4ª não existia”, brinca Strul. “Chegamos com uma mão na frente e outras atrás, não falávamos a língua e conhecíamos muito poucas pessoas.”

O recomeço foi difícil. Sem educação formal, Strul começou a trabalhar como ambulante, vendendo roupas porta em porta.

Anos depois, já estabelecido, abriu sua loja de móveis na Zona Norte de São Paulo, de onde tirou o sustento para criar seus quatro filhos (“todos com formação acadêmica”, destaca). Strul também tem dez netos.

Hoje aposentado, vive com a esposa Manuela, de 74 anos (o casal se conheceu em um baile de Carnaval no Rio de Janeiro em 1969), vai à sinagoga pela manhã e dedica-se a manter viva a lembrança do Holocausto por meio de palestras em escolas e eventos.

 Strul trabalhou como ambulante quando chegou ao Brasil (Foto: Gui Christ / BBC)

Strul trabalhou como ambulante quando chegou ao Brasil (Foto: Gui Christ / BBC)

“Quero muito agradecer ao povo brasileiro por nos ter acolhido. Devo tudo a esse país. Amo este lugar.”

Strul também diz ter tentado, por diversas maneiras, reaver a propriedade da família na Romênia, ainda sem sucesso.

“Há 20 anos, tento receber uma indenização, mas não consigo. Tenho até hoje a escritura da minha casa, mas minha casa continua confiscada”.

 Família se mudou para Israel após ditadura comunista na Romênia (Foto: Gui Christ / BBC)

Família se mudou para Israel após ditadura comunista na Romênia (Foto: Gui Christ / BBC)

 Atualmente aposentado, Strul dedica-se a manter viva lembrança do Holocausto por meio de palestras em escolas e eventos (Foto: Gui Christ / BBC)

Atualmente aposentado, Strul dedica-se a manter viva lembrança do Holocausto por meio de palestras em escolas e eventos (Foto: Gui Christ / BBC)

Memória
Todos os anos, no dia 27 de janeiro, a comunidade judaica celebra o Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto.

A data marca a libertação do maior campo de extermínio nazista, Auschwitz-Birkenau, por tropas soviéticas. No local, estima-se que mais de 1 milhão de pessoas, a maioria judeus, foram mortas.

No Brasil, a data será lembrada em evento promovido pela Confederação Israelita do Brasil (Conib), pela Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) e pela Congregação Israelita Paulista (CIP), no domingo, 28 de janeiro, na Sinagoga Etz Chaim em São Paulo.

No hall, acontecerá a exposição “Além do Dever – Diplomatas reconhecidos como Justos entre as Nações”, produzida pelo Yad Vashem (Museu do Holocausto de Israel).

O Dia Internacional em Memória das Vítimas do Holocausto é celebrado desde 2005, após uma resolução da ONU.

Link original: https://g1.globo.com/mundo/noticia/colhiamos-grama-para-minha-mae-fritar-com-gordura-diz-sobrevivente-do-holocausto-radicado-no-brasil.ghtml

[O GLOBO] Para que nunca mais haja Holocausto


Volta e meia ressurgem sinais do restabelecimento de ódios raciais, extremismos de comportamento e ideologias sectárias, que formaram o caldo de cultura do qual o nazismo

por Teresa Bergher

Há 73 anos, no dia 27 de janeiro de 1945, tropas da União Soviética, em sua avassaladora ofensiva em direção a Berlim, o centro do poder nazista, invadiram e libertaram o complexo de 48 campos de concentração de Auschwitz, na Polônia, revelando ao mundo cenas de horror que, ainda hoje, desafiam sensibilidades e mostram do que é capaz o ódio quando transformado em política de Estado. Foram necessários, porém, 60 anos de exibição das atrocidades ali praticadas para que a Assembleia Geral das Nações Unidas, em 2005, aprovasse resolução declarando aquela data o Dia Internacional da Lembrança do Holocausto.

Infelizmente, a natureza humana, até num gesto involuntário de autoproteção, tende a eliminar gradualmente da memória as situações desagradáveis. O mundo inteiro se chocou quando, diante do Tribunal de Nuremberg, que julgava os chefões nazistas, o primeiro comandante alemão de Auschwitz, Rudolf Hoess, declarou que só ali, nas câmaras de gás e por maus tratos, haviam morrido três milhões de pessoas. Somados, os “campos da morte” do nazismo, espalhados por nações ocupadas e na própria Alemanha, perseguiram e assassinaram cruelmente seis milhões de judeus, entre eles, 1,5 milhão de crianças e outras minorias como ciganos, homossexuais, deficientes físicos, negros e Testemunhas de Jeová. Mas, gradualmente, a lembrança dessa gigantesca tragédia, mesmo constantemente reprisada por dezenas de livros e documentários de cinema e televisão, vai-se esmaecendo, apesar da decisão da ONU, que visava exatamente ao não esquecimento, para que a menção constante aos horrores mantivesse presente a necessidade de evitar a sua repetição.

Não se sabe se o escritor colombiano Gabriel García Márquez pensava nisso quando cunhou a linda frase “É fácil esquecer para quem tem memória; difícil esquecer para quem tem coração”. Auschwitz e outras horrendas lembranças do Holocausto podem, eventualmente, escapar das memórias. Porém, jamais deixarão os corações, não apenas de quem viveu a tragédia através da perda de famílias e amigos, mas, especialmente, de quem se atribui a responsabilidade de manter viva, geração após geração, as imagens da perversidade humana levada aos seus extremos. Dois anos após a guerra, a Polônia, uma das maiores vítimas das atrocidades, criou, ali mesmo, o Museu do Holocausto. Desde então, mais de 30 milhões de visitantes já passaram pelos portões de ferro da entrada, encimados pela infame frase “O trabalho liberta”.

Mas, acredito, é muito pouco, e, insisto nisso, a única forma de evitar a repetição de tais tragédias coletivas é recordá-las incessantemente, mês após mês, ano após ano. Além do mais, porque, volta e meia, ressurgem, no horizonte, sinais do restabelecimento de ódios raciais, extremismos de comportamento e ideologias sectárias, que formaram o caldo de cultura do qual o nazismo se alimentou e cresceu até deflagrar a guerra em grande escala e seu cortejo de horrores. Na Áustria, a extrema-direita xenófoba já chegou ao poder e exige intensa vigilância das organizações dedicadas à proteção dos direitos humanos. Mesmo na rica e poderosa Alemanha, que se supunha exorcizada do demônio do racismo, ressurgem, vigorosas, organizações de pensamento similar ao da era hitlerista que, igualmente, requerem vigilância das forças democráticas e moderadas.

A lembrança de tanta dor e sofrimento, além dos corações e das mentes, precisa ser, também, incorporada materialmente ao dia a dia de cada um de nós. Esse é o sonho que me anima quando, junto com a prefeitura do Rio e outros setores da sociedade, nos empenhamos na construção de um monumento às vítimas do Holocausto, no Morro do Pasmado, dedicado à preservação da memória daquele período de trevas. São Paulo e Curitiba já têm o seu, e o Rio não ficará, também, sem render tributo a tantos milhões de pessoas que perderam as vidas cruelmente e que não podem ser esquecidas. Não descansarei enquanto esse sonho, idealizado há 20 anos pelo deputado Gerson Bergher, não se concretizar.

Teresa Bergher é vereadora (PSDB) no Rio e presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara

Link original: https://oglobo.globo.com/opiniao/para-que-nunca-mais-haja-holocausto-22308041

[Jornal Boa Vista] Como foi chegar até aqui: A Tenda Branca, o lançamento


Baseado numa história real, o livro trata de amor, superação e a busca pela felicidade, onde quer que ela esteja

Por Salus Loch

Foram cerca de dez segundos de espera pendurados por um frio na barriga.

Quando o ‘sim’ veio, agradeci, respirei fundo e passei para a próxima pergunta.

O desafio estava lançado.

Assim, em meio à entrevista com Magdalena Guitta Wein e, após o ‘sim’ recebido – autorizando que aquela conversa tomasse outras dimensões – nasceu A Tenda Branca, romance baseado na história de vida da guerreira Guitta, sobrevivente do Holocausto Nazista durante a II Guerra Mundial e que hoje, aos 89 anos, mora em Florianópolis/SC.

De lá para cá foram dois anos de pesquisas, viagens – intercalando Lima, no Peru, com o Litoral Catarinense –, incertezas, apoios sinceros, erros, acertos, escrita, escrita, escrita e aprendizados sobre a condições humana.

Não foi fácil, confesso.

Escrever não é fácil.

Mas, aqueles que escolhem tal caminho como ofício (no meu caso, o jornalismo) precisam ter coragem, e seguir.

A coragem, que perpassa a trajetória de Guitta, foi encontrada na magnitude da história que se revelou sem pressa à minha frente, nos seguidos encontros com a protagonista da obra.

E com este espírito, os obstáculos foram vencidos, um a um, até chegar aqui: o lançamento oficial de A Tenda Branca – que acontece neste sábado, 28, a partir das 15h na Livraria Bankath, no Master Sonda Shopping de Erechim, momento para o qual convido amigos e leitores deste espaço.

Busca pela felicidade, onde quer que ela esteja

A Tenda Branca, no entanto, é mais do que um passeio histórico por um dos momentos mais tristes e deprimentes da humanidade – o Holocausto, patrocinado pelo governo nazista, quando 6 milhões de judeus foram mortos, somando-se à eliminação de milhões de outras pessoas e categorias consideradas indignas de vida por Hitler e seus seguidores, nos quais destacavam-se comunistas, homossexuais, ciganos, testemunhas de Jeová, pessoas com deficiência e outras minorias.

A obra, no entanto, trata, fundamentalmente de amor, superação e a busca pela felicidade, onde quer que ela esteja.

Foi isso que fez Guitta seguir logo após ser separada para sempre de seus pais quando desembarcou em Auschwitz-Birkenau, numa manhã cinzenta do dia 6 de maio de 1944 – trecho do livro que faço questão de reproduzir aqui:

A separação
Era difícil saber quantas pessoas se aglomeravam no vagão. Cento e cinquenta. Duzentas, talvez.

Famílias inteiras se amontoavam num espaço que, aparentemente, não comportava nem metade daquela legião de homens, mulheres, crianças e idosos. Faltava espaço, sobravam incertezas.

À noite, a temperatura amena do dia abria espaço para o ar gelado que cortava as narinas e era incapaz de afastar o cheiro de urina e das fezes que, a partir do segundo dia, havia preenchido o local. Baldes faziam as vezes das latrinas. Peças de vestuário eram utilizadas para as mínimas exigências de higiene pessoal. Banho? Sem chance.

Pior do que aquele odor, só o cheiro do medo que acompanhava a todos.

Nas madrugadas, ombros, pernas e abraços substituíam as camas que as famílias haviam deixado para trás no trajeto entre o gueto e a escuridão. Não havia como escapar daquela sensação de impotência, sujeira e temor rumo ao nada.

No comboio de Guitta, um senhor de costas encurvadas e olhar cansado afirmava que eles estavam sendo transportados para uma fábrica de tijolos na Alemanha – onde a vida melhoraria. Ary, que àquela altura seguia grudado a Guitta, duvidou da informação.

– Ele não sabe o que está falando, emendou Ary. O rabino Isaac disse que estamos sendo levados para um campo nazista. Temo que ele esteja certo.

Guitta, até então, desconhecia o que seria um campo nazista.

O desembarque em Auschwitz-Birkenau, 72 horas depois, mostrou que o homem das costas curvas estava errado, e Ary certo. Infelizmente.

Às 5h54min do dia 6 de maio de 1944, Magdalena Guitta Wein chegou com a família no mais célebre e cruel campo de extermínio criado pelos nazistas durante a II Guerra Mundial, Auschwitz-Birkenau, no sul da ocupada Polônia.

Pai, mãe, os dois irmãos, quatro tios, três tias, cinco primos, os avós maternos e Ary desembarcaram com ela após a viagem que parecia não ter fim.

Enjoos. Solavancos. Angústias. Fome. Frio.

Com o trem parado no fim de uma linha precedida por luzes brancas e vermelhas ao longo de dezenas de postes que conduziam os vagões para Auschwitz-Birkenau, Guitta puxou o braço da mãe e, mais cedo do que deveria, comemorou.

A verdade é que não sabiam onde estavam nem o motivo pelo qual haviam sido levados àquela grande área descampada, com arames que cercavam o local e emprestavam ao ambiente um aspecto funesto em meio aos latidos dos cães.

Havia inúmeros barracões e alguns prédios com chaminés ao longe. Era tudo muito espaçado, bem maior do que o gueto, e trazia uma diferença peculiar. No ar, o cheiro que soprava com a brisa lembrava algo queimado. Forte. Amargo. Estranho.

Ao buscar amparo na mãe, a fim de saber o que era aquilo e onde haviam chegado, Guitta ouviu o que, desde os 13 anos, já se acostumara a escutar: é a guerra, filha. É a guerra. Ficará tudo bem. Fique de mãos dadas com seus irmãos e silêncio, por favor.

Com armas e chicotes em punho e gritos inteligíveis, soldados alemães fiscalizavam o serviço executado por prisioneiros de Auschwitz que empurravam os recém-chegados para fora do trem. À frente de Guitta um senhor que já deveria ter passado dos 80 anos caiu e se estatelou no chão ao descer. Um primo dela, Janus, foi tentar ajudá-lo. Não teve tempo. Um oficial da SS lhe desferiu uma coronhada que o fez apagar de pronto. Gotas de sangue do nariz do rapaz mancharam o vestido bege da mãe do próprio Janus, a menos de dois metros de Guitta. Aturdido, o pai do jovem pegou o filho no colo em silêncio, enquanto a mãe continha o choro. Ambos pareciam entender que manter a boca fechada era o melhor a fazer.

Ao mesmo tempo, outro oficial da SS, com uma grande cicatriz abaixo do olho direito, se dirigiu para o velho caído, o agarrou pelo braço e o fez ficar de pé.

Com o olhar, o pobre senhor parecia suplicar. Parecia pedir perdão por sua fraqueza. Por sua idade. Por atrapalhar a fila que estava sendo formada.

Foi inútil.

O tiro que atravessou o lobo frontal fez o corpo desabar sem força. Disforme. Apagado.

O estampido da bala cortou o ar e deixou ainda mais cinza aquela manhã.

Horrorizados, os grupos próximos mesclaram gritos abafados com choros, gemidos e suspiros.

Guitta passou pelo filete de sangue que se formara ao lado do corpo inerte do velho, mas não teve coragem de fitar a cena. Estremecida, segurou firme a mão do pai e do irmão mais velho. Logo atrás, ouviu a irmã soluçar e se virou no momento em que a mãe acariciava os cabelos da pequena. Ela já havia perdido Ary de vista – que fora arrastado para uma fila separada.

– Me aguarde Guitta, vou voltar para te buscar, gritou o rapaz numa última tentativa de contato, que não teve resposta.

Súbita e definitivamente, o pai e o irmão de Guitta também foram empurrados para uma fila distante. Daquele momento em diante jamais voltaria a abraçar o pai e o irmão, nem o avô, primos ou os tios que tomaram o mesmo caminho. Na fila de Guitta restaram apenas as mulheres, incluindo sua mãe, a irmã, a avó, primas e tias.

Aos empurrões, Guitta ainda tentou voltar para perto do pai, mas foi repelida por um soldado que a chamou de vadia, ou algo do tipo. Vencida pela ameaçadora postura do oficial, manteve contato visual com Sandor, e conseguiu ouvir a mãe dizendo: volte para o seu lugar, querida. Vai ficar tudo bem.

Tentando não perder o pai de vista enquanto as filas se afastavam, Guitta lembrou da festa de 70 anos da avó Patrícia, dois anos atrás, às margens do Mar Negro, no litoral romeno, com direito a banho de lama medicinal e comida farta. Aquela havia sido a última vez que estavam todos reunidos para festejar. A felicidade era genuína. E saudosa.

Depois veio o Gueto. O confinamento. Os choros. A insegurança. O trem. O frio. A fome. A coronhada no Janus. O velho morto. A iminente separação.

Parecia tudo tão rápido, e triste.

Com os olhos marejados, ela queria acreditar que as palavras da mãe fossem verdadeiras. Que ficaria tudo bem.

Acabou perdendo o pai e voltou-se para a mãe e a irmãzinha, que haviam ficado cinco passos atrás na fila. Retornou para perto delas e logo em seguida foi indicada, por ordem de um homem alto e de aparência soturna – mais tarde descobriria que o nome do médico era Josef Mengele –, para ingressar numa nova fila. Desta vez, porém, as únicas que lhe acompanharam foram as primas, Henrieta e Maria, e a tia Cinca.

Guitta buscou a mãe e a irmã com os olhos e a primeira lhe retribuiu sorrindo com lágrimas que desciam devagar num rosto ainda bonito, mas marcado por rugas que haviam se multiplicado nos últimos meses. Rosália deu um breve adeus com a mão direita. A irmã, no colo da mãe, lançou em direção à Guitta um beijo, que fez sua diminuta boca parecer um pequeno pirulito em forma de coração.

A cabeça de Guitta girava. Ela chorava. Queria voltar para perto de Eva. Abraçar a irmã e a mãe. Deu um passo na direção delas e foi violentamente impedida por mãos fortes e enluvadas que seguraram seus ombros. Então ouviu alguém, ao longe, chamar seu nome. Era Sandor, seu pai. Procurou pelo destino da voz e viu a mão dele erguida. Ela viu também o espanto escancarado nos olhos do homem que fora sempre tão forte. Mesmo aos empurrões, ele fez um meneio com a cabeça, como que encorajando a filha a continuar.

Glen, que seguia anotando tudo de cabeça baixa num misto de indignação, sofrimento e raiva, de repente, sentiu a sala silenciar.

Encarou Guitta e viu que os olhos da entrevistada estavam úmidos e a boca formava uma parábola negativa e triste.

Ao redor da mesa todos estavam emocionados. O sonho que o jornalista tivera na noite anterior era real e mais triste do que imaginava – especialmente pelo desfecho que acabara de transcrever.

Depois de uma longa pausa, e de um suspiro que mais parecia um grito de dor vindo da alma, Guitta continuou.

– Não houve despedidas naquele dia. Apenas tive tempo de abanar de volta para minha mãe e para Eva, e rezei – esperando que, de alguma forma, conseguisse cumprir a promessa de jamais me separar de Eva. Também procurei pelo papai e não o vi mais. Fiquei atordoada e desesperada. Esperava que pudesse voltar a vê-los logo.

Isso, porém, jamais aconteceria.


A entrevista
Aproveito o espaço para reproduzir, também, trechos da primeira entrevista com Guitta, em setembro de 2015 – momento no qual surgiu a ideia de escrever o livro.

Perseguição
‘O clima hostil sentido desde o início da Segunda Guerra, para nós judeus, não era novidade. Porém, as coisas foram piorando com o tempo. Não era mais questão apenas de estudar numa escola separada dos cristãos, ou vestir roupas com uma estrela amarela. Bem que pessoas ligadas aos alemães avisaram nossa família para fugirmos enquanto era tempo. Não levamos a sério. Resultado: acabamos no gueto de Satu Mare, na Romênia, logo depois do ano novo de 1942. Nossa grande casa no centro da cidade, que antes era ocupada apenas por nós cinco (Guitta, o pai, a mãe, e os dois irmãos), ficou para trás e passamos a dividir, no gueto, uma casa com outras seis famílias. O conforto se foi; o medo apareceu. Meu pai, minha mãe, meu irmão mais velho e eu fomos obrigados a fazer trabalhos forçados, e olha que eu não tinha nem 15 anos na época. Foi uma reviravolta gigante em nossas vidas. Naquele momento parecia que eu havia perdido tudo: a liberdade, a infância, o futuro. Mas o pior estava por vir: Auschwitz-Birkenau’.

Trabalhos forçados
‘Entre os diversos tipos de trabalhos forçados aos quais fui submetida durante o período da guerra, fiquei com várias marcas e lembranças. Certa vez uma fábrica, na qual trabalhávamos na reconstrução, foi bombardeada. As bombas começaram a explodir ao nosso redor. Escapei da morte por milagre. Foi um choque incrível. Porém, nem bem me recompus do pavor e tive que recolher os corpos daqueles que morreram no ataque. Éramos descartáveis, mera mão-de-obra barata nas mãos dos alemães. Eu, todavia, trabalhava direitinho porque só assim tinha uma chance de permanecer viva. Naquela época ainda tinha esperança de rever minha família. Só fiquei sabendo da morte deles quando voltei para a Romênia, no fim da guerra’.

O caminho das Américas
‘Atravessamos a Europa no fim da década de 1940 e chegamos a Lima, no Peru – onde uma prima do meu marido já estava estabelecida. Lá, comecei uma vida nova e pródiga. Abrimos, numa garagem, uma fábrica de confecções. Eu saia vender os produtos nos povoados e vilas da capital peruana. Hoje, o empreendimento é uma multinacional. Sinto orgulho disso, embora esteja, involuntariamente, afastada dos negócios. Sinto orgulho de ter construído algo grande praticamente do nada, mostrando aos nazistas que nos tratavam como animais que, com força de vontade e trabalho, se podia – e ainda se pode, claro – fazer muita coisa boa e com resultados positivos, seja no aspecto financeiro, seja no campo da realização pessoal’.

Felicidade
‘Se os negócios com a empresa iam bem, no campo afetivo algumas coisas mudaram. O tempo passou e a relação com meu marido esfriou. Acabei deixando Lima e a empresa para trás e vim residir em São Paulo com um novo amor. Um italiano que me conquistou ainda em Lima. Nossa vida no Brasil foi boa, posso dizer. E hoje, com ambos os homens da minha vida mortos, estou aqui, em São José, Santa Catarina morando perto da minha filha e de uma das minhas netas, já que a outra mora na Guatemala (no dia da entrevista, a neta ‘guatemalteca’ estava visitando a mãe e a avó, no Brasil). Elas são minha razão de viver, e é por isso que afirmo: hoje, tenho perto de mim tudo o que eu preciso. Poderia ter sido diferente? Claro que poderia, mas não foi. A Guerra deixou marcas, é óbvio, mas consegui me levantar. Você pede para que eu deixe uma mensagem para quem for ler essa nossa conversa. Escreve aí, então: temos que correr atrás dos nossos objetivos, não importa a idade ou a situação na qual possamos nos encontrar. A vida é valiosa demais para abrirmos mão de nossa liberdade e de nossos sonhos. Seja feliz, não importa onde nem com quem. Gostou?’.
Gostei.

Gratidão
É preciso agradecer, ainda, aos parceiros nesta jornada – com destaque para meus pais, Valdemar Artur e Marilene Loch; Guitta e seus familiares; além dos amigos Alcides Mandelli Stumpf (que assina o prefácio da obra) e Nilson Luiz May, proprietário da editora Scriptum Produções Culturais, de POA – que acreditou na proposta.

À autora da capa, Ananda Kuhn (minha prima), ao Varella, da Gráfica All Print, aos colegas de imprensa pela divulgação graciosa e a Marilene Rigo e diretores do Caol (entidade com a qual fiz parceria para destinar um percentual de cada livro comercializado), estendo minha gratidão. Obrigado, de coração.


O primeiro livro
Com a proposta de divulgar a história de Guitta e alertar para os riscos do pensamento reacionário/sectário, tenho realizado palestras em Erechim e região. Numa destas oportunidades, a convite do amigo Neivo Fabris, participei esta semana de bate-papo no Colégio Estadual Antônio Scussel em Getúlio Vargas. E lá algo gratificante aconteceu. Ao final dos colóquios, o jovem William, de 16 anos, chegou ao meu lado, adquiriu um exemplar da obra, e tascou: ‘depois de ouvir a história, confesso que este é o primeiro livro que tive vontade de comprar’. Emocionei-me com William; torço que seja o primeiro de muitos – de ambos.

Link original: http://jornalboavista.com.br/27102017como-foi-chegar-ate-aqui-a-tenda-branca-o-lancamento

[archdaily] Monumento Nacional do Holocausto projetado pelo Studio Libeskind é inaugurado em Ottawa, Canadá


Por Patrick Lynch | Traduzido por Romullo Baratto

 © Doublespace. Courtesy of Studio Libeskind

© Doublespace. Courtesy of Studio Libeskind

O Monumento Nacional Canadense do Holocausto, projetado pelo Studio Libeskind, foi inaugurado em Ottawa, homenageando “os milhões de homens, mulheres e crianças inocentes que foram assassinados pelo regime nazista e reconhecendo os sobreviventes que conseguiram eventualmente fazer do Canadá seu novo lar”.

Localizado em um terreno de 3.200 metros quadrados em frente ao Museu da Guerra Canadense, o monumento de concreto feito in loco evoca a forma da estrela de Davi de 6 pontas, desconstruída para criar um “ambiente experiencial” rico em simbolismos.

 © Doublespace. Courtesy of Studio Libeskind

© Doublespace. Courtesy of Studio Libeskind

 © Doublespace. Courtesy of Studio Libeskind

© Doublespace. Courtesy of Studio Libeskind

© Doublespace. Courtesy of Studio Libeskind

© Doublespace. Courtesy of Studio Libeskind

“A estrela continua a ser o símbolo visual do Holocausto – um símbolo que milhões de judeus foram obrigados a usar pelos nazistas para identificá-los como judeus, excluí-los da humanidade e marcá-los para o extermínio”, explicam os arquitetos. “Os espaços triangulares são representativos dos emblemas que os nazistas e seus colaboradores usavam para rotular homossexuais, ciganos, testemunhas de Jeová e prisioneiros políticos e religiosos.”

Dois planos estabelecem caminhos simbólicos e circulatórios através da estrutura: um plano ascendente que “aponta para o futuro”, e um plano descendente que leva aos espaços interiores contemplativos. Os ambientes específicos do programa estão localizados dentro dos seis triângulos de concreto, incluindo um espaço de interpretação educacional que descreve a história do Canadá e do Holocausto, três espaços de contemplação, um espaço de encontro central e o “Voo do céu” semelhante a uma catedral que abriga a Chama da Lembrança, em eterna combustão”

Murais de Edward Burtynsky são expostos nas paredes de cada espaço triangular, transportando os visitantes para as assustadoras paisagens do Holocausto. Dialogando com os edifícios do Parlamento, a “Escada da Esperança” leva os visitantes do espaço de encontro central para a praça superior. Ao redor do monumento, uma paisagem rochosa repleta de árvores de coníferas crescerá à medida que a estrutura envelhece, representando a passagem do tempo e a contribuição dos sobreviventes para a cultura e a sociedade do Canadá moderno.

“É extremamente importante ter projetado e realizado este monumento com uma equipe incrível”, disse o arquiteto Daniel Libeskind.

“Este monumento não só cria um espaço público muito importante para a lembrança daqueles que foram assassinados no Holocausto, mas também é um constante lembrete de que o mundo de hoje está ameaçado pelo antissemitismo, pelo racismo e pelo fanatismo. O Canadá apoia os valores democráticos fundamentais das pessoas, independentemente da raça, classe ou credo, e esse monumento nacional é a expressão desses princípios e do futuro.”

O Studio Libeskind foi selecionado para o projeto através de uma concorrência internacional com outros cinco reconhecidos escritórios. Veja as demais propostas aqui.

Saiba mais sobre o Memorial aqui.

Link original: http://www.archdaily.com.br/br/881084/monumento-nacional-do-holocausto-projetado-pelo-studio-libeskind-e-inaugurado-em-ottawa-canada

[Justificando] O que senti ao visitar um extinto campo de concentração na Alemanha só para mulheres


Tamara Amoroso Gonçalves
Advogada e Pesquisadora

Em julho deste ano, eu tive uma experiência bastante particular, para dizer o mínimo. Como parte de um curso, passei 3 noites e quatro dias em um território que serviu de campo de concentração durante a segunda guerra mundial.

Diferente de outros campos na Polônia, o campo de concentração de Ravensbrück (Alemanha) inicialmente foi formado para abrigar mulheres que de alguma forma não agiam conforme o que era esperado delas: mulheres identificadas com “problemas sociais”, acusadas da prática de crimes (aborto dentre eles), envolvidas em movimentos políticos contra o regime nazista e aquelas que se recusavam a negar sua fé como testemunhas de Jeová.

As judias chegaram um pouco depois do estabelecimento do campo de concentração. Tratava-se de um campo de trabalhos forçados e não de exterminação. Algumas empresas, principalmente têxteis e relacionadas ao desenvolvimento de tecnologia, cresceram e prosperaram utilizando-se do trabalho das mulheres desse campo. Eventualmente, cerca de 20.000 homens foram trazidos para trabalhar na expansão do campo, uma vez que a produção prosperava aceleradamente.

Ravensbrück é um lugar estranhamente calmo e bonito. Há um grande lago, há plantas, pássaros. Fica a 2km de uma pequena cidade, que pode ser avistada do outro lado do lago, que aliás, foi o recipiente de cinzas humanas. Cinzas que também foram usadas para pavimentar estradas ao redor do campo. Tudo ali foi construído com o trabalho das mulheres do campo, bem como com suas cinzas.

Sempre achei que visitar um extinto campo de concentração me ajudaria a entender melhor o holocausto. Na bagagem de volta, trouxe mais dúvidas do que respostas.

O que aconteceu ali não é possível de se compreender, ainda que se durma nas casas que um dia foram das guardas responsáveis pela segurança do campo. Ainda é difícil entender como algo assim pôde acontecer.

Racionalmente, há diversas explicações e eu as compreendo. Mas emocionalmente, não consigo aceitar, não consigo entender: como é possível não ver um ser humano naquela pessoa à sua frente? Como processos de desumanização podem são tão profundos a ponto de levar a genocídios?

Ao visitar Ravensbrück também me choquei com a ostensiva segurança, por câmera e também com guardas 24 horas por dia. Isso porque o campo costuma ser alvo de ataques de grupos neonazistas, que tentam destruir as evidências do que ocorreu ali.

O guia que nos acompanhou durante os 4 dias que estivemos no campo, disse-nos muitas vezes sobre a importância de lembrar o que se passou ali. Para que aprendamos e estejamos atentos: pode sempre acontecer de novo.

Uma sociedade que se permite esquecer, está sujeita a repetir os mesmos erros. Eu voltei pensando no quanto a memória, individual e coletiva, é valiosa. E o quanto no Brasil, lembramo-nos de esquecer momentos traumáticos. Sentimo-nos desconfortáveis, preferimos “pensar que já passou e olhar pra frente”. Mas como? Como se olha pra frente sem entender o que aconteceu no passado?

Quando li esses dias que um famoso cantor negou, em entrevista, que o Brasil viveu uma ditadura militar e que pessoas morriam por ser contra o regime, me deixou de cabelos em pé. Seria desconhecimento? Ou apenas uma vontade muito grande de negar o acontecido? O fato de o Brasil anistiar inclusive torturadores e muitas vezes homenageá-los com nomes de ruas e praças talvez tenha um relevante papel nesse esforço por negar e esquecer: foi o preço que pagamos por uma transição negociada para a democracia.

Como consequência, não enfrentamos com as continuidades que ainda se manifestam na nossa sociedade. A Comissão da Verdade apontou, dentre outras coisas, que a nossa polícia ainda opera nos moldes da ditadura militar: desaparecimentos forçados e tortura ainda são rotina.

Recentemente, uma exposição de arte foi fechada por pressão de um grupo social que a considerou “imoral”. Desde 2013, grupos que clamam pela volta dos militares se avolumam nas manifestações: de rua e virtuais. Quando lembro que em 64, a ditadura foi instaurada com apoio de parte da sociedade, que clamava por mais “ordem” (Marcha da Família com Deus), penso nas sérias consequências de nosso esforço em esquecermos.

Como eu aprendi em Ravensbrück, lembrar é central para que possamos avançar.

Para lembrar, é preciso resgatar a história, coletar depoimentos, registrar, construir memoriais, estudar, discutir com a sociedade essa história. Essa é uma luta dos sobreviventes, bem como familiares de desaparecidos políticos e mortos durante a ditadura.

Não temos um holocausto na nossa história, mas temos eventos traumáticos sobre os quais precisamos nos debruçar e buscar entender. Só temos a agradecer a eles por não desistirem e nos alertar constantemente que pode acontecer de novo. Somemo-nos a eles, é o único caminho para avançarmos enquanto sociedade.

Tamara Amoroso Gonçalves é Mestra em Direitos Humanos pela USP e doutoranda em direito pela Universidade de Victoria, Canadá. Integrante do CLADEM/Brasil e do GEA. Pesquisadora associada do Instituto Simone de Beauvoir (Universidade Concordia, Canada). Autora de diversas obras sobre direitos humanos, dentre elas Direitos Humanos das Mulheres e a Comissão Inter-americana de Direitos Humanos (Saraiva, 2013).

Link original: http://justificando.cartacapital.com.br/2017/09/13/o-que-senti-ao-visitar-um-campo-de-concentracao-na-alemanha-so-para-mulheres/

[Brasil Escola] Einsatzgruppen: os grupos de extermínio nazistas


A ação do Einsatzgruppen, os grupos de extermínio nazistas, foi responsável pela morte de milhares de pessoas, sobretudo judeus, nas regiões conquistadas no Leste Europeu.

Durante a Segunda Guerra Mundial, os nazistas cometeram um dos maiores genocídios da história da humanidade: o holocausto. Ele promoveu, principalmente, a perseguição de judeus na Europa. No entanto, é importante ressaltar que outras minorias foram perseguidas pelos nazistas durante as décadas de 1930 e 1940, como as testemunhas de Jeová e os ciganos.

Essa ação contra os judeus fazia parte da retórica e da ideologia promovida por Hitler desde a década de 1920 e resultou em uma perseguição gigantesca por várias partes da Europa. Os planos do líder alemão para esse povo era o extermínio total após o término da Segunda Guerra.

No entanto, Hitler foi convencido por Heinrich Himmler e Reinhard Heydrich a impor a Solução Final com a guerra em curso. A Solução Final era o termo usado pelos nazistas para definir o plano de extermínio dos judeus da Europa. A política de Himmler e Heydrich consistia em executar aqueles que não pudessem trabalhar e escravizar até a morte os que tivessem condição de trabalho.

Uma das etapas do holocausto promovido pelos nazistas foi a atuação de esquadrões da morte chamados de Einsatzgruppen, que significa “força-tarefa” em alemão. Esse grupamento havia sido criado pela Alemanha nazista em 1938 durante a anexação da Áustria (chamada de Anschluss).

A partir de 1939, o Einsatzgruppen foi colocado sob a liderança de Reinhard Heydrich. Com o início da guerra, esse grupamento tinha como missão promover a pacificação da retaguarda à medida que o exército alemão avançava territorialmente. O Einsatzgruppen era formado por membros da Gestapo, do Exército e da SS.

Atuação no Leste Europeu

Com a invasão da Polônia, o Einsatzgruppen ficou responsável por eliminar a intelligentsia polonesa – ação semelhante à da União Soviética no Massacre de Katyn. A intenção disso era de, a partir da eliminação da classe culta polonesa, tornar a sociedade local incapaz de resistir ao processo de escravização imposto pelos nazistas. O historiador Timothy Snyder afirma que, nessa missão contra a intelligentsia polonesa, o Einsatzgruppen matou cerca de 61 mil pessoas|1|.

Posteriormente, o Einsatzgruppen ficou responsável por executar a ordem definida por Hitler contra os judeus: o extermínio. Assim, na Polônia, nos países bálticos e nos territórios conquistados pela Alemanha na União Soviética, esse grupamento contribuiu para a morte de milhares de judeus.

A atuação do Einsatzgruppen consistia em invadir vilas e locais habitados por judeus. Primeiramente, eles eram despojados de todas as suas posses para, em seguida, serem executados de maneiras distintas, porém, a principal forma de execução usada era o fuzilamento.

A ordem para executar os judeus foi dada por Heinrich Himmler conforme o mandado transmitido por Adolf Hitler. Abaixo segue o relato de Timothy Snyder acerca da atuação do Einsatzgruppen a partir de 1941:

Em julho de 1941, Himmler fez uma viagem particular por todo oeste da União Soviética a fim de transmitir a última informação: mulheres e crianças judias deviam ser eliminadas junto com os homens judeus. As forças terrestres reagiram rapidamente. O Einsatzgruppe C, que acompanhava o Grupo de Exércitos do Sul na Ucrânia, tinha sido mais lento do que o Einsatzgruppe A (países bálticos) e o Einsatzgruppe B (Vilnius e Bielorrússia) para realizar os fuzilamentos coletivos de judeus. Mas depois, com o incentivo de Himmler, o Einsatzgruppe C eliminou cerca de 60 mil judeus em agosto e setembro. Foram fuzilamentos organizados, não pogroms|2|.

A função do Einsatzgruppen no extermínio de judeus foi fulminante. Um exemplo disso é o Massacre de Babi Yar, no qual o Einsatzgruppen C executou cerca de 33 mil judeus em aproximadamente 36 horas. A atuação desse grupamento acabou sendo progressivamente substituída pelo uso dos campos de concentração a partir de 1942. Os historiadores estimam que as ações nazistas contra os judeus (incluindo a ação do Einsatzgruppen) causaram a morte de 1 milhão de pessoas até dezembro de 1941|3|.

|1| SNYDER, Timothy. Terras de sangue: a Europa entre Hitler e Stalin. Rio de Janeiro: Record, 2012, p. 166.
|2| Idem, p. 247.
|3| Idem, p. 270.

Por Daniel Neves
Graduado em História

Link original: http://brasilescola.uol.com.br/historiag/einsatzgruppen-os-grupos-exterminio-nazistas.htm