Archive for the ‘Religião’ Category

[FOLHA DE SÃO PAULO] O dinamarquês preso e acusado de ‘extremismo’ na Rússia por ser testemunha de Jeová


Julgamento de Dennis Christensen começa nessa terça; ele pode ser condenado a até 10 anos de prisão

Detido há 11 meses na Rússia, o dinamarquês Dennis Christensen pode ser condenado a até 10 anos de prisão – HRW/Testemunhas de Jeová

Mal o dinamarquês Dennis Christensen tinha começado a fazer uma pregação na casa em que se reunia com Testemunhas de Jeová quando o local foi invadido por policiais para prendê-lo.

Isso ocorreu há onze meses, no dia 25 de maio do ano passado, na cidade de Oryol, a 360 quilômetros ao sul de Moscou. A polícia e agentes do serviço secreto confiscaram uma Bíblia, livros com conteúdo religioso, laptops e discos rígidos na operação.

Christensen, 46, ainda está preso. O julgamento dele começa nesta terça. Se for declarado culpado de organizar atividades do que promotores do país veem como “organização extremista” pode ser condenado a até 10 anos de prisão.

Um mês antes de Christensen ter sido detido, a Suprema Corte russa havia proibido as atividades dos seguidores da religião Testemunhas de Jeová e ordenado o confisco de propriedades da organização no país, onde o grupo tinha 395 centros e cerca de 200 mil seguidores.

As autoridades russas consideram que o movimento religioso cristão é uma “ameaça aos direitos dos cidadãos, à ordem social e à segurança pública”.

O Ministério da Justiça afirmou na época que o movimento distribuía panfletos que incitavam o ódio a outros grupos.

Um desses panfletos citava o escritor russo Leon Tolstói descrevendo a Igreja Ortodoxa Russa como superstição e feitiçaria.

As Testemunhas de Jeová são uma organização religiosa internacional, criada nos EUA no fim do século 19, que compartilha preceitos de outras correntes do cristianismo, mas baseia suas crenças numa interpretação própria da Bíblia; seus seguidores não acreditam na poder divino de Cristo.

Seus seguidores, estimados em cerca de 8 milhões em todo o mundo, são conhecidos pela pregação de porta em porta.

Apesar da proibição, o dinamarquês Dennis Christensen, que tem permissão de residência no país desde 2000, continuou os trabalhos religiosos da organização na Rússia.

De acordo com seus advogados, as acusações contra ele estão relacionadas também a outros incidentes ligados a atividades de incentivo a publicações religiosas, a manutenção de locais para culto e ao arrebanhamento de novos fiéis.

PRESO POR LER A BÍBLIA

Organizações de defesa dos direitos humanos questionam o encarceramento de Christensen e pedem que ele seja libertado.

“As autoridades russas estão buscando castigar uma Testemunha de Jeová por exercer seu direito a praticar sua religião”, afirma Rachel Denber, diretora adjunta da organização Human Rights Watch para Europa e Ásia Central.

“Desde o princípio, os investigadores estão deformando a participação pacífica de Dennis Christensen para que a conduta dele se pareça com um delito. Ele não fez nada de mau e deveria ser liberado”, completa Denber.

Dennis Christensen vive em Oryol há dez anos e é casado com uma russa. Apesar de participar com regularidade de encontros do movimento, ele nega pertencer ao comando das Testemunhas de Jeová na Rússia.

“Nunca foi membro da entidade legal, da organização religiosa local. É apenas um dos nossos crentes em Oryol. Nada especial”, afirma Yaroslav Sivulskiy, porta-voz das Testemunhas de Jeová na Rússia à revista norte-americana Newsweek.

“Eles o prenderam simplesmente por ler a Bíblia”, salienta Sivulskiy, dizendo que agora a legislação permite acusações desse tipo. “Se copiam esse tipo de ação em outros lugares, não haverá mais lugar seguro. Podem ir a sua casa e onde for”, lamenta o porta-voz.

A operação policial do dia 25 de maio do ano passado pode ser vista no YouTube. As imagens mostram agentes de segurança mascarados entrando num local onde dezenas de pessoas estão sentadas.

Vestindo terno marrom e camisa preta, Christensen aparece dialogando com os agentes. Vários fiéis foram detidos, mas apenas o dinamarquês permaneceu preso.

COMPARADOS AO EI

Ao proibir a atuação das Testemunhas de Jeová classificando-os como “extremistas” em abril do ano passado, a Justiça russa colocou os seguidores do grupo na mesma categoria dos militantes do autodenominado Estado Islâmico.

“Fundada nos EUA no século 19, as Testemunhas de Jeová têm sede mundial em Warwick (próximo a Nova York) e, junto com todos os grupos liderados por estrangeiros fora do controle do Estado, são vistos com profunda suspeita pela versão pós-União Soviética da KGB, o FSB, serviço federal de segurança”, explica Andrew Higgings, correspondente em Moscou do jornal americano The New York Times.

Já faz alguns anos que as minorias religiosas do país começaram a sentir pressão do governo russo.
Uma lei antiextremismo aprovada em 2002 determinou que é ilegal – exceto para a Igreja ortodoxa ou outras instituições religiosas tradicionais no país – proclamar a oferta de um caminho para a salvação religiosa ou política.

Mas a Rússia, observa a ONG Human Rights Watch, é obrigada a proteger os direitos de liberdade religiosa e de associação por ser país membro do Conselho da Europa e signatário da Convenção Europeia dos Direitos Humanos.

“O caso contra Christensen e as investidas contra os adeptos das Testemunhas de Jeová viola o direito à liberdade de religião, nega-lhes o direito de culto e não pode ser justificado como medida necessária ou proporcional para proteger a segurança pública ou a ordem pública”, avalia a organização de direitos humanos.

O caso de Christensen, destacou o jornal dinamarquês The Copenhagen Post, foi o primeiro de prisão de estrangeiro depois da nova lei russa. Yaroslav Sivulskiy, porta-voz das Testemunhas de Jeová no país, assegura que é a primeira vez que um seguidor da religião é preso desde o fim da União Soviética.

Muitos no país temem que não seja o último. As Testemunhas de Jeová reportam que desde que a nova legislação entrou em vigor, já contabilizaram 40 incidentes de agressão.

BBC BRASIL

Link original: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2018/04/o-dinamarques-preso-e-acusado-de-extremismo-na-russia-por-ser-testemunha-de-jeova.shtml

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[worldreligionnews] As Testemunhas de Jeová são alvo de leis de discriminação religiosa no Cazaquistão (Inglês)


Novo relatório revela tendência surpreendente de perseguição religiosa

O relatório New Human Rights Watch para 2018 foi lançado . O relatório anual é o padrão dominante para o estado dos direitos humanos em cada região e país. Ele é usado por governos e organizações sem fins lucrativos tanto para louvar quanto para criticar.

Um ponto particular que foi mencionado é o estado contínuo de perseguição religiosa no Cazaquistão . Como a WRN informou , as Testemunhas de Jevohs foram objeto de uma campanha direcionada pelo governo Kazkstani usando leis que supostamente foram concebidas para impedir o extremismo religioso. Pelo menos 22 pessoas foram condenadas por “incitar a discórdia religiosa”.

Também houve restrições à expressão religiosa. Foi aprovada legislação que censura a literatura religiosa, proíbe o ensino da religião na escola e aperta a viagem. Recentemente, o Cazaquistão impediu qualquer pessoa com menos de 16 anos de entrar em uma casa de culto.

Os Estados Unidos não estão dispostos a desafiar o Cazaquistão em seus abusos em direitos humanos. O presidente Trump se encontra com o presidente da Cazaquistão, Nursultan Nazarbayev, e nem mencionou os direitos humanos. De fato, em junho, o secretário de Estado, Rex Tillerson, elogiou o país por seu compromisso com os direitos humanos. Os europeus e as Nações Unidas têm sido relativamente silenciosos sobre isso também.

Isso continua o padrão da Testemunha de Jeová sendo alvo de países que recebem apoio da Rússia tem ocorrido nos últimos anos. WRN informou que alguns especialistas argumentam que a influência da Rússia, que proibiu as Testemunhas de Jeová, fez com que outros países usassem a proteção da proteção contra o terrorismo para continuar a praticar discriminação religiosa sistemática.

Link original: http://www.worldreligionnews.com/?p=47662

[rapsinews] Tribunal russo não procede a recurso contra a tentativa de propriedade da Testemunha de Jeová (Inglês)


ST. PETERSBURG, 19 de janeiro (RAPSI) – O tribunal do distrito de Sestrotretsky de São Petersburgo decidiu não proceder a um recurso contra o confisco de bens da organização das Testemunhas de Jeová, banida na Rússia, avaliada em 881,5 milhões de rublos (cerca de US $ 15,5 milhões), até 9 de fevereiro, RAPSI aprendeu no tribunal na sexta-feira.

O tribunal não tem informações sobre o pagamento da taxa pela recorrente, disse seu representante à RAPSI.

O apelo foi arquivado pela Watch Tower Bible and Tract Society of Pennsylvania, registrada nos EUA, que é o destinatário da propriedade da organização liquidada.

Os bens das Testemunhas de Jeová incluíram 16 itens imobiliários em São Petersburgo, de acordo com os promotores.

O tribunal descobriu anteriormente que o Centro Administrativo das Testemunhas de Jeová transferiu seu complexo imobiliário para Watch Tower, Bíblia e Tract Society da Pensilvânia, sob um acordo de doação em 1º de março de 2000. No entanto, o tribunal declarou o acordo fraudulento porque as Testemunhas de Jeová continuaram usando a propriedade após a sua transferência para a organização estrangeira, e confiscou o complexo imobiliário com o lucro da Federação Russa.

Em abril de 2017, o Supremo Tribunal da Rússia ordenou a liquidação da organização de gerenciamento das Testemunhas de Jeová e todas as suas 395 agências locais. Em agosto, o Centro Administrativo das Testemunhas de Jeová foi adicionado à lista de organizações extremistas proibidas.

A organização religiosa das Testemunhas de Jeová teve muitos problemas legais na Rússia. Desde 2009, 95 materiais distribuídos pela organização no país foram declarados extremistas e 8 filiais de Testemunhas de Jeová foram liquidados, de acordo com o Ministério da Justiça.

Testemunhas de Jeová é uma organização religiosa internacional com sede em Brooklyn, Nova York. Desde 2004, várias filiais e capítulos da organização foram banidos e encerrados em várias regiões da Rússia.

Link original: http://www.rapsinews.com/judicial_news/20180119/281682082.html

[Diário de Pernambuco] Maurício Rands: 500 anos da Reforma Protestante


Maurício Rands é advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford

Amanhã celebram-se os 500 anos da Reforma Protestante que tantas transformações trouxe ao mundo. Na religião, mas também na política, na economia e na cultura. Quando Lutero afixou suas 95 teses na Igreja do Castelo de Wittemberg, em 31/10/1517, estava quebrada a unidade e centralização do mundo cristão. Quando em seguida ele publicou a primeira tradução do Novo Testamento do Latim para o Alemão, em 1522, o vulgo pôde ter acesso direto às Escrituras.

Desde então, a Igreja Católica conseguiu manter um pólo centralizado no Vaticano, preservando sua tendência à unidade. No campo da Reforma, o Protestantismo desenvolveu uma forte tendência à fragmentação. Foi desdobrando-se em grandes troncos como Calvinismo, Presbiterianismo, Luteranismo, Anglicanismo, Metodismo, Batistas, Pentecostais, Neopentecostais, Adventistas e Testemunhas de Jeová. Com várias denominações no interior de cada um deles, sem estrutura centralizada. Segundo o Pew Research Center, a população mundial hoje é formada por 31,2% de cristãos (sendo 50,1% católicos, 36,6% protestantes, e 13,2% ortodoxos ou outros); 24,1% muçulmanos; 15,1% hindus; 6,9% budistas; 5,7% religiões autóctones; 0,2% judeus; e 16,8% outras ou sem religião. Estima-se que no Brasil os evangélicos estejam entre 25% e 27% da população. Nos anos 60 eram apenas 1%.

Levantamento da Folha de São Paulo (20-10-17) mostra a força e a atuação das bancadas evangélicas na Câmara dos Deputados. Em 1994, eram 21 deputados (4% dos). Em 2014, foram eleitos 80 deputados (15,5%). A maioria ligada à Assembleia de Deus (23) e à Universal do Reino de Deus (14). Bancadas que tendem a seguir uma pauta conservadora. Que atuam muito nos temas de direitos humanos (21% da Comissão de DH da Câmara). Em pautas contra LGBTI, aborto, liberação de drogas e em defesa do modelo tradicional de família. E também na Comissão de Ciência e Tecnologia, por onde tramitam as concessões de rádio e TV (40% das 30 cadeiras). A matéria mostra que PRB (15 deputados), DEM (8) e PSC (8) são os partidos preferidos. Sobre a crise política, 89% dos deputados evangélicos disseram sim ao impeachment de Dilma e 37,5% foram contra o arquivamento da denúncia contra Temer no dia 25/10. Essa tendência de atuação na Câmara não deve eclipsar a pluralidade que existe no interior de cada denominação evangélica. Existem evangélicos pro-gay como os da Igreja Cristã Contemporânea. E há setores participando de movimentos sindicais na CUT, de movimentos ambientalistas, e de partidos progressistas como o PT e a REDE.

Essa pluralidade no interior das igrejas, e das evangélicas em particular, aponta para a necessidade de tolerância e diálogo ecumênico entre as diferentes igrejas e tradições. Mais ainda, de diálogo entre o mundo religioso e o mundo cívico. Para que possamos construir espaços de convivência que possibilitem a solução dos grandes problemas de uma sociedade complexa como a brasileira. Pactuando-se soluções específicas para problemas concretos, sem que se precisem cancelar as convicções e identidades de cada setor.

Somente o diálogo genuíno pode evitar ocorrências tristes como as reveladas na última edição do fim de semana do Financial Times. Que trouxe matéria sobre recentes ataques nas favelas do Rio de Janeiro aos terreiros de Umbanda e Candomblé, onde ainda se mantêm esses cultos de religiões afrodescendentes. Os ataques teriam sido perpetrados por gangs ligadas ao tráfico de drogas. Intitulando-se ‘bandidos evangélicos’, eles pretenderiam acabar com o que consideram ‘práticas demoníacas’ das religiões afrodescendentes. Uma intolerância religiosa seguida de atos de terrorismo que contrastam com o próprio espírito da Reforma Protestante.

Link original: http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/politica/2017/10/30/interna_politica,728786/mauricio-rands-500-anos-da-reforma-protestante.shtml

[Diário Catarinense] Testamento vital, que garante morte digna a pacientes terminais, ainda é pouco utilizado em SC


Últimos desejos do paciente terminal, como não ser intubado ou não ter reanimação cardíaca, podem ser registrados em cartório e constar no prontuário - Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Imagine-se na condição de um paciente terminal: já sem capacidade de se comunicar, mas com o diagnóstico iminente da morte. De que forma você gostaria de passar os últimos dias? Em vez de delegar ao médico a missão de encontrar a cura onde as possibilidades de sobrevida são inexistentes, há quem prefira ser poupado de procedimentos considerados invasivos. No intuito de abreviar o sofrimento, esse público rejeita métodos como a intubação, mas opta por terapias que aliviam os sintomas finais até o último suspiro.

Não se trata do desligamento de aparelhos, mas do oposto à eutanásia: a ortotanásia, que foca na adoção de tratamentos capazes de controlar a dor de doenças irreversíveis. Esses pacientes encontram respaldo no testamento vital, documento por meio do qual a pessoa pode manifestar de antemão sobre quais tratamentos não quer ser submetida no final da vida. Apesar de completar cinco anos em 2017, a resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) que regulamenta esse recurso ainda é pouco aplicada no país e em Santa Catarina. A insegurança jurídica, já que não há legislação específica que aborde a temática no Brasil, aliada à falta de profissionais especializados em tratamentos paliativos e ao tabu em relação à morte estão entre os motivos pelos quais as diretivas antecipadas de vontade do paciente são raridade.

O médico catarinense Roberto D’Ávila, que presidiu o CFM de 2009 a 2014, explica a motivação do texto 1.995 que aprovou em 2012. Ele caracteriza como excessivos os procedimentos que prolongam a morte com sofrimento e fora do convívio familiar, justamente o que o testamento vital tenta evitar.

— Os médicos têm que reconhecer que, quando chega o momento, não se deve interferir, principalmente se era a vontade da pessoa. Mas quem escreve tem medo de não ter os desejos respeitados. A família é o principal agente, que nega isso porque quer mais um dia de vida àquela pessoa. E aí vai deixando os profissionais operarem e fazerem tudo para prolongar a etapa, mas é maldade. Todos têm que morrer um dia — explicita.

Desde 2012, somente 42 diretivas antecipadas de vontade, como o documento é conhecido nos cartórios, foram registrados por catarinenses. A vice-presidente da Associação dos Notários e Registradores do Brasil no Estado (Anoreg-SC), Anna Christina Ribeiro Neto Menegatti, explica a pouca adesão ao método. A tabeliã de Itajaí é taxativa ao afirmar que a falta de lei específica sobre esse momento não é um problema porque o código civil dá base a isso. Porém, reconhece que as famílias podem processar os profissionais que seguirem às vontades expressas nos documentos.

— Os testamentos vitais não ferem princípios constitucionais, porque todos os requisitos para elaborá-lo estão previstos no Código Civil. Na verdade, o que se vê é que existe pouca divulgação sobre a possibilidade de a pessoa escolher qual tratamento quer receber ou refutar — indica.

Isabela, que estudou esse recurso na enfermagem, optou pelo registro da diretiva antecipada de vontade. Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Isabela, que estudou esse recurso na enfermagem, optou pelo registro da diretiva antecipada de vontade. Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

A importância de conhecer os procedimentos

Após estudar as últimas vontades dos pacientes no âmbito da enfermagem, Isabela Saioron, que é doutoranda na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), decidiu fazer o próprio registro em cartório. Assinou um documento afirmando que, em caso de morte encefálica, gostaria de ter os órgãos doados, além de ter o corpo cremado. Preferiu, por enquanto, não mencionar quais procedimentos gostaria de rejeitar caso um dia seja uma paciente terminal.

— É comum ver pessoais leigas recusando esse ou aquele tratamento. Mas até que ponto ela está informada sobre eles ou sobre a enfermidade que tanto teme? Então, ele pode colocar uma recusa que vai salvar a vida dele. Ou o avanço tecnológico vai tornar aquele procedimento menos invasivo. De qualquer maneira, é uma forma de informar previamente o que a família possivelmente se perguntaria quando já não é mais possível responder — pondera.

Por desconhecer uma aplicação consistente do testamento vital, o advogado responsável pela presidência da comissão de direito notarial e registros da Ordem dos Advogados do Brasil em SC, Roberto Pugliesi, considera a população conservadora em relação ao morrer.

— Até os testamentos comuns são mau vistos, então você imagina os vitais. Culturalmente, há um certo repúdio em se expor a última vontade através de testamento, porque muita gente pensa que está chamando a morte ou que é mau agouro — analisa.

Segundo dados do Colégio Notarial do Brasil, desde 2006, foram pouco mais de 3,1 mil testamentos vitais registrados no país. A Federação dos Hospitais, Clínicas, Casas de Saúde, Laboratórios de Pesquisas e Análises Clínicas e Demais Estabelecimentos de Serviços de Saúde do Estado de São Paulo (Fehoesp) tenta encaminhar um projeto de lei por meio do Ministério da Saúde. O tema é objeto de legislação nos Estados Unidos, na Espanha e, mais recentemente, em Portugal.

Vontades do paciente podem constar no prontuário médico

O testamento vital, que difere do convencional por ser utilizado ainda em vida e não envolver bens materiais, também pode estar previsto no prontuário de cada paciente, dada a validade legal desse papel. Essa é a forma, inclusive, que a Secretaria de Estado da Saúde garante a autonomia de cada pessoa internada em hospitais públicos de Santa Catarina.

— Os profissionais dos hospitais da secretaria tem conhecimento da resolução do CFM sobre o testamento vital. Mas, até o momento, nenhum paciente apresentou esse documento . Quem atua nas unidades sempre atende a vontade do paciente, familiares ou representante legal — garante Ledronete Silvestre, que coordena a Política Nacional de Humanização da pasta.

Nesses espaços do Estado, também há um formulário para que a pessoa preencha conforme seus interesses terapêuticos em um contexto de terminalidade. Ou de convicções religiosas, por exemplo, como é o caso do movimento Testemunhas de Jeová, que não aceita transfusões sanguíneas. No entanto, o presidente da Associação Catarinense de Medicina (ACM), Rafael Klee de Vasconcellos, cita duas dificuldades no respeito a esses vontades que, considera, a dignidade no momento da morte.

— O testamento vital exige um posicionamento individual do paciente, que tem que deixar isso claro perante o seu médico e seus familiares. O fato de não haver um sistema de prontuário único atrapalha, porque o paciente do SUS ou até de convênio não está sempre circulando no mesmo ambiente ou no mesmo médico. Ou os familiares não concordam com aquilo — diz.

Procurado, o Conselho Regional de Medicina em Santa Catarina (CRM-SC) também afirma que “ainda há muito o que fazer para ser um documento mais conhecido”, sem detalhar as ações.

Especialistas defendem testamento vital como um direito à dignidade do paciente até no momento da morte. Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Especialistas defendem testamento vital como um direito à dignidade do paciente até no momento da morte. Foto: Felipe Carneiro / Agencia RBS

Profissional ressalta a importância de alinhamento das vontades com a família
Mesma recomendação de compartilhar a decisão prévia com profissionais de confiança da medicina e do direito tem a advogada mineira Luciana Dadalto, que administra o site Testamento Vital. Nesse contato anterior ao registro do testamento vital, é possível ter conhecimento a respeito das técnicas comumente utilizadas em doenças terminais, bem como saber de que forma é possível elencá-las no documento, que é uma manifestação de livre vontade. A jurista que estuda a temática há uma década defende a participação da família nesse momento.

— Não existe um rol objetivo do que pode ser previsto. Em geral, o testamento vital pode conter aceitação ou recusa de cuidados, tratamentos e procedimentos para o fim da vida. Não é possível prever disposições contra a lei vigente como, por exemplo, pedido de eutanásia. Conversar antes evita que a família seja surpreendida pelo documento em um momento em que o paciente não tem mais condições de se manifestar — defende.

Nessa conversa, é interessante destacar o potencial dos procedimentos que podem ser adotados a partir do momento em que não há mais cura para uma enfermidade, conforme defende a médica Lauren Provin. A profissional, que atua no serviço de suporte oncológico e cuidados paliativos do Centro de Pesquisas Oncológicas de Santa Catarina (Cepon), explica que essa abordagem dá conta de aliviar sintomas físicos, psicológicos, sociais e espirituais. E os pacientes têm desejado comunicar desde o diagnóstico àquilo que desejam, que reflete em alívio da dor, controle de sintoma de estresse, atendimento de emergência e, principalmente, reafirmação da vida.

— A nossa sociedade pensa que vai morrer aos 90 anos lúcida e fazendo tudo o que faz hoje, mas não é verdade. Os estudos internacionais mostram que cada vez mais se morre com sintomas e mal atendimento. As pessoas estão pensando menos no conforto e na qualidade e mais em ter um dia a mais como for, e isso é assustador. É vida a qualquer custo — diz.

Debater o assunto em sala de aula pode contribuir para o esclarecimento em torno dos testamentos vitais. É o que almeja o professor do curso de medicina da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoeste), Élcio Bonamigo, que aplica um modelo experimental em disciplinas de bioética e ética médica na graduação e pós-graduação.

— Nas aulas, tanto os médicos, como os pacientes aceitam bem e atenderiam as vontades. Então essa mudança vai ser rápida. Agora, praticamente todos os alunos de direito, medicina e enfermagem já estão tendo esses conceitos dentro de seus estudos — projeta.

O DOCUMENTO
No testamento vital, os pacientes podem expressar de antemão a quais procedimentos não querem ser submetidos em uma eventual situação de terminalidade no futuro. Veja outros aspectos desse documento abaixo:

O que é?O documento lista as vontades da pessoa em relação aos tratamentos a que pode ou não ser submetida em caso de doença terminal, tais como cirurgias, ventilação mecânica, uso de medicamentos ou reanimação pós-parada cardíaca. Além de impossibilidade de sobrevida, também pode ser feito a fim de garantir o respeito à convicções religiosas, a exemplo dos testemunhas de Jeová, que não recebem transfusão de sangue.

Quem pode fazer?
Diferentemente do testamento comum, o testamento vital é feito em vida. Todas as pessoas com mais de 18 anos podem registrar, desde que ainda tenham condições de se expressar.

Quem garante o cumprimento?
A pessoa pode nomear um representante legal a fim de assegurar o cumprimento de suas intenções quando já não estiver mais bem. Nem mesmo o desejo da família pode prevalecer nesse caso.

Onde é registrado?
No prontuário do paciente, que tem validade legal, ou em cartório a custo médio de R$ 40 em SC.

Há alguma situação em que não haja validade?
Somente se o procedimento em questão infringir códigos de ética dos profissionais de saúde ou se for enxergado como uma possibilidade de cura.

É aplicado em instituições de saúde no país?
Além de pouca informação sobre o testamento vital, profissionais de saúde relatam insegurança jurídica por conta da ausência de uma legislação específica. Então, os poucos registros nem sempre são cumpridos. Atualmente, a resolução do CFM, editada em 2012, ampara somente os médicos.

Existe respaldo no mundo?
Nos Estados Unidos, o testamento vital tem valor legal desde 1970. Portugal aprovou o mesmo documento em 2011.

REGISTROS EM SANTA CATARINA
Desde a criação da resolução do Conselho Federal de Medicina, em 2012, somente 42 testamentos vitais foram registrados em cartórios do Estado. Veja a evolução a cada ano:

2012 – 5
2013 – 6
2014 – 4
2015 – 11
2016 – 8
2017* – 8
*Até outubro

Fonte: Central Notarial de Serviços Eletrônicos Compartilhados (CENSEC)

Link original: http://dc.clicrbs.com.br/sc/estilo-de-vida/noticia/2017/10/testamento-vital-que-garante-morte-digna-a-pacientes-terminais-ainda-e-pouco-utilizado-em-sc-9966749.html

[Gazeta News] Scott assina lei que proíbe escolas de discriminar alunos por religião


Medida está em um pacote de 234 leis que entraram em vigência dia 1° e proíbe discriminação de alunos, pais ou funcionários por sua opção religiosa

Foto: USAG-Humphreys

Foto: USAG-Humphreys

Está em vigência desde o dia 1° de julho um pacote de novas leis. Foram 234 novos regulamentos aprovados – 125 dessas leis já estavam em vigor e foram revisadas – e incluem mudanças na área de educação, transporte, saúde, meio-ambiente, impostos, orçamento, dentre outros (Veja lista completa das novas leis). Mas uma das mais controversas diz respeito à educação. Trata-se da lei SB 436 “Florida Student and School Personnel Religious Liberties Act” (Lei de Liberdades Religiosas Pessoal Escolar da Flórida), que determina que alunos e professores terão permissão para expressar suas crenças religiosas nas escolas públicas.

Assinada em 9 de junho pelo governador Rick Scott, a lei visa proibir um distrito escolar de discriminar alunos, pais ou funcionários com base em pontos de vista ou expressão religiosa; proíbe penalidade ou recompensa pela expressão religiosa de um aluno em cursos, trabalhos de arte ou outras atribuições especificadas; e exige que um distrito escolar cumpra os requisitos federais referente ao Título VII da Lei de Direitos Civis de 1964, etc.

“É hora de parar de perseguir os alunos pelas suas crenças religiosas ao classificar as atribuições ou limitar os textos de leitura apenas porque eles podem conter material religioso”, disse Shawn Frost, presidente da conservadora Florida Coalition of School Board Members.

Para a guia de turismo brasileira Eliane Barros, de 55 anos que mora na Flórida há 20 anos, que matriculou as filhas em escolas públicas e hoje tem uma neta prestes a entrar para a escola, “as escolas não deveriam ter inclinação para nenhuma religião”. “Não gostaria que minha neta fosse obrigada, na escola, aprender sobre alguma religião”, destaca.

Para a paulista, mesmo sem religião, uma pessoa pode ser até melhor do que uma religiosa e, nas escolas, a religiosidade traz muita confusão para as crianças, como por exemplo, na época em que as filhas estudavam, sempre presenciava confusão nas comemorações de aniversários de Testemunhas de Jeová, ou durante o Halloween, que os evangélicos consideram como uma celebração diabólica. “Como você explica a uma criança que algo que ela comemora, para outra criança é ruim, negativo?”, questiona.

Conhecido na comunidade brasileira na Flórida, o pastor Silair Almeida, da PIBFlorida, menciona que a liberdade religiosa é um instrumento democrático forte e que a lei, de um modo geral, é um avanço para a sociedade. “A força dos Estados Unidos está na liberdade de expressão. Não podemos é deixar que um grupo ou segmento tente manipular esta liberdade. Cada ser humano tem o direito de expressar sua fé sem agredir a fé do seu vizinho”.

Para Silair, o principal é que tal prática esteja mesmo prevista em lei e seja regulamentada. “O que será permitido? O que não será tolerado? Grupos poderão usar alguma sala vazia para expressar a fé?”, questiona.

Link original: https://gazetanews.com/scott-assina-lei-que-proibe-escolas-de-discriminar-alunos-por-religiao/

[Gazeta do povo] O Estado deve pagar cirurgia fora do SUS por convicção religiosa?


Poder público foi condenado custear cirurgia não coberta pelo SUS para evitar transfusão de sangue em Testemunha de Jeová

A discussão sobre liberdade religiosa está chegando com força ao Supremo Tribunal Federal (STF). Enquanto o tribunal não decide se animais podem ser sacrificados em cultos religiosos e se as pessoas religiosas podem tirar foto cobrindo o rosto, mais um caso foi admitido pelo plenário depois de reconhecida a repercussão geral: deve o Estado custear um tratamento de saúde indisponível no SUS em razão das convicções religiosas do doente? O Recurso Extraordinário (RE) 979.742 chegou ao Supremo depois de União recorrer contra uma decisão que condenou o estado do Amazonas, o município de Manaus e a própria União a pagar, para um paciente Testemunha de Jeová, uma cirurgia que não envolve transfusão de sangue.

Para o ministro Luís Roberto Barroso, relator do recurso, “a questão constitucional em exame se restringe a definir se a liberdade de crença e consciência, prevista no art. 5º, inciso VI, da CF, pode justificar o custeio de tratamento médico indisponível na rede pública”. O ministro ponderou que uma política sanitária que desconsidere concepções minoritárias sobre o que é viver bem seria uma violação das liberdades constitucionais dessas minorias, mas, ao mesmo tempo, reconheceu que a alocação de recursos escassos para atender convicções religiosas colocaria em risco a concretização de outros direitos constitucionais:

[O caso] impõe a difícil ponderação do direito à vida e à saúde de uns contra o direito à vida e à saúde de outros. Nessa linha, exigir que o sistema de saúde absorva toda e qualquer pretensão individual, como se houvesse na Constituição o direito a um trunfo ilimitado, leva à ruína qualquer tentativa de estruturação de serviços públicos universais e igualitários”, ministro Luís Roberto Barroso

Discussão
No recurso contra o acórdão da Turma Recursal do Juizado Especial Federal do Amazonas e Roraima, que confirmou uma decisão de primeira instância, a União alegou que o custeio da cirurgia viola o princípio da isonomia, porque o “o acolhimento do pedido de custeio de tratamento médico criará uma preferência em relação aos demais pacientes”, e o princípio da razoabilidade, já que “qualquer procedimento cirúrgico pode ter complicações, exigindo a transfusão de sangue”.

Os juízes da turma, no entanto, enfatizaram que o procedimento cirúrgico chamado cirurgia de artroplastia total primária cerâmica sem transfusão é previsto pela medicina e que, “em sendo tecnicamente possível, o Poder Público deve garantir o direito à saúde de maneira compatível com as convicções religiosas do cidadão, uma vez que não basta garantir a sua sobrevivência, mas uma existência digna, com respeito às crenças de cada um, nos moldes do art. 1º, III, da Constituição Federal”.

Link original: http://www.gazetadopovo.com.br/justica/o-estado-deve-pagar-cirurgia-fora-do-sus-por-conviccao-religiosa-d8ftg9f4wkf1lupcbx6n69gy1